Imagem: Divulgação/ Europa Filmes
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Mais um filme brasileiro chegando aos cinemas, e desta vez não é uma comédia e nem um drama, mas sim a tentativa de um terror sobrenatural misturado com thriller psicológico, suspense… enfim: uma bagunça. O Caseiro é realmente uma tentativa que quase deu certo em seus primeiros 15 minutos, mas desandou totalmente durante todo o filme. Apesar de não ter gostado, reconheço a ótima iniciativa da produção em fazer um filme como este.

A proposta de fazer um filme de terror sobrenatural aqui no Brasil me agradou muito, em um primeiro momento. O mais importante quando se faz um filme com elementos sobrenaturais é você precisa acreditar naquilo que está fazendo. Por exemplo, Invocação do Mal (2), onde vemos um casal de protagonistas que sabem que os casos que pegam podem envolver isso ou não, assim como em Constantine, mesmo tendo um protagonista desacreditado da vida ele ainda tem suas crenças religiosas. E é aí que os problemas começam em O Caseiro.

Um professor de faculdade, que escreveu um livro sobre o assunto, está dando uma aula sobre fantasma (só de falar fantasma já não dá para levar muito a sério) e uma aluna, que não faz parte da classe, se identifica com o assunto e apresenta um caso que está acontecendo na sua família. Até esse momento a história se mostrava interessante e com uma proposta razoavelmente boa. Mas depois que Davi (Bruno Garcia) resolve partir para a casa da família de Renata (Malu Rodrigues) o longa se perde muito, perde todos os conceitos iniciais, não sabe com o que se preocupar, como capturar melhor as cenas, tem problemas com o foco e com a edição, apresentando cortes bruscos nos momentos errados.

Claramente os recursos de O Caseiro eram bem poucos, mas poderiam ser aproveitados de uma forma bem melhor. Algumas cenas acabam tendo desfoque no rosto dos personagens por mero erro de quem estava segurando a câmera, Julio Santi deveria ter ficado mais em cima das gravações porque é evidente que muitos desses erros se remetem a falta de presença do diretor. A tentativa que o filme faz na maneira como filma (tentando trazer uma câmera em movimento quase que panorâmico, estilo James Wan) não deu nada certo, pois com ela em movimento e oscilando para cima e para baixo, teria sido bem melhor deixar essa tipo de filmagem de lado e investido em um close central para acompanhar o personagem.

Imagem: Divulgação/ Europa Filmes
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O roteiro começa bem, tem um ritmo bem lento por quase todo o filme, mas quando há a tentativa de criar um twist extraordinário a história vira uma confusão sem tamanho, sendo ainda maior do que a da Corrida Maluca. Realmente não tem como explicar o que acontece, pois o filme não sabe se conduzir em um único sentido, o que seria certo era definir o terror sobrenatural como tal e não em cima de dúvidas e tentativas frustadas e furadas para extrair uma explicação científica para o problema. É um erro passar um filme todo querendo fazer algo sem acreditar naquilo que se está fazendo. As explicações são feitas nas falas largadas de alguns personagens que haviam deixado muitas pontas soltas, sendo que nem todas elas fazem sentido e ficam a cargo do espectador entendê-las. Ponto muito negativo para o filme, que não se explica por completo, cria uma história inicialmente razoável, mas depois passa a ser uma grande confusão de roteiro e mal desenvolvimento.

As atuações são muito ruins, não entendi até agora porque o personagem de Bruno Garcia andava daquele jeito estranho. Fora isso todos os personagens não foram bem, realmente em atuações o filme deixa a desejar, ainda mais quando vai desenvolver os personagens deixando muitas pontas soltas e você precisa fazer grande esforço para entender toda a história do filme. É uma pena um gênero tão legal como terror sobrenatural chegar com um proposta interessante, mas na hora do “vamos ver” (literalmente) ninguém sabe conduzir ou criar ela da maneira que deveria.

Outro problema é que o filme fala toda hora no tal do Caseiro, incansavelmente, mas em nenhum momento, devido a descrença do protagonista, quiseram ir atrás de respostas, como para as perguntas mais óbvias: “Porque eles está fazendo isso? O que ele quer?“. Ainda mais que em nenhum momento o filme deixa claro quais são suas motivações, eles constroem dúvidas em cima de dúvidas que ficam cada vez mais incertas, e na hora de responder todas as questões os acontecimentos são muito sem noção. Por exemplo (possível spoiler): Um celular é colocado no banco de trás de um carro sem a pessoa saber, seguem ele através do GPS, o carro para em uma casa e quando os perseguidores chegam o carro não está lá e o celular está em cima de uma cômoda… Isso ficou muito vago, assim como muitos outros acontecimentos também ficaram durante o “climax” do filme, que infelizmente não deu certo.

A iniciativa de O Caseiro em tentar explorar esse gênero bastante conhecido no cinema brasileiro é muito válida, mas claramente o filme não teve os conceitos certos para ser realizado. Acho que o cinema aqui no Brasil precisa de projetos ousados como este, mas o planejamento e a execução precisam melhorar muito para vermos potencial em nossas produções. Digo isso porque mesmo que eu não tenha gostado de nada neste filme, ainda admiro a iniciativa de fazer um longa-metragem nesse gênero, pois não precisamos ficar restritos em comédias nacionais que só mudam o ator que passa o filme todo gritando.

Imagem: Divulgação/ Europa Filmes
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Voltando ao elenco, acredito que a maioria das escolhas foi equivocadas, ou pela falta de orçamento foi o que deu para encontrar. As crianças não são ruins, mas falta aquele dedo do diretor para deixar elas mais a vontade e confortáveis em cena, para não ficar algo muito quadrado. Mas isso, infelizmente se viu em todos os personagens, principalmente o padre que não tinha cara de padre. Leopoldo Pacheco já interpretou alguns bons personagens, mas dessa vez realmente não deu para engolir. Acho que realmente todos os erros do filme e os fatores que não ficaram bons (quase todos) se devem pela falta de experiência do diretor, que deveria ter coordenado melhor no set de gravações. Tudo bem que essas falhas são justificadas em um primeiro filme, mas deveria ter alguém mais experiente aconselhando Julio Santi, pois começar com um terror sobrenatural é muito complicado.

O Caseiro e os filmes do gênero aqui no Brasil ainda tem um caminho extremamente longo para percorrerem e acertar o ponto de uma boa produção. Rever conceitos, estudar fórmulas melhores de produção, roteiro, gravação, edição, efeitos e escolha dos atores (sabendo trabalhar melhor as características dos personagens e rever totalmente os diálogos formais) são cruciais para continuar essa caminhada.

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Criador da Matinê, está no 4º semestre do curso de jornalismo no Centro Universitário Ritter dos Reis - UniRitter. Aqui escrevo sobre filmes e séries a partir da minha perspectiva de mundo, sem medo de mostrar a todos o meu entendimento pessoal daquilo que assisto. O debate de pontos de vistas diferentes é livre, e sempre bem-vindo.