Crítica | ‘Kóblic’ erra no tom e não aproveita sua história

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Imagem: Divulgação/ Paris Filmes
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O mais novo filme argentino protagonizado por Ricardo Darín, traz a história do ex-militar Kóblic, piloto das forças armadas durante a ditadura do país na década de 1970. Kóblic trabalhava nos voos da morte, onde os militares interrogavam pessoas e por fim jogavam-nas do avião. Cansado disso, o protagonista não cumpre uma ordem e quando chega em casa a única escolha que lhe resta é ficar escondido até “abafar o caso”, mas ao mudar de cidade e se apaixonar por uma moradora local seus problemas se tornam uma grande bola de neve.

Darín é um grande ator, já estrelou diversos filmes argentinos com ótimas histórias. Kóblic era uma trama em potencial mediano, mas acaba não sendo bem aproveitado. O cinema na Argentina tem características bem marcantes e uma delas é a capacidade de interpretação que suas histórias possuem. Explicando apenas o necessário sobre a trama e os seus personagens, os filmes argentinos gostam de fazer o público pensar de uma forma sútil e ter aquele pequeno estalo na cabeça simbolizando o entendimento dos fatos. O longa faz isso, mas de forma mais profunda. O roteiro deixa todas as questões subentendidas em demasia, tornando a história lenta em excesso.

A cultura de alguns exageros estraga bons elementos da trama, onde o certo era ter o equilíbrio entre simplicidade e inteligência. Kóblic (personagem) carrega um drama pesado em suas costas, é visível que os acontecimentos recentes e os do passado impõe um grande peso traumático na consciência do protagonista. Isso é aumentado, novamente em demasia, com o constante uso do flashbacks, que mostra as mesmas cenas durante todo o longa. O fato de usar flashback no cinema é sempre complicado, pois não é todo o diretor e roteirista que compreende o seu uso. Em Kóblic isso poderia ser mais simples, uma pequena sequência do passado para introduzir a história do longa – eliminando a necessidade de reprodução durante toda a história – faria de Kóblic um filme mais enxuto e mais objetivo.

Imagem: Divulgação/ Paris Filmes
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A motivação do personagem vai mudando completamente ao passar do tempo. Em um primeiro momento, Kóblic só quer fugir, deixar o tempo passar e voltar para a esposa; no segundo momento ele se apaixona, tenta proteger os amigos das garras do delegado e antagonista da história e sua fuga fica em último plano. A desconstrução do conceito motivacional do personagem incomoda, principalmente porque em vários momentos ele parece não ter mais nenhum objetivo e perde o controle de suas ações – atendendo apenas os chamados do coração. Inma Cuesta, que interpreta Nancy, mostra como era o tratamento da mulher na época, fazendo um contraste interessante ao representar a figura da mulher objeto para o homem no século passado. Com isso o protagonista acaba sendo levemente modernizado e se mostra um completo romântico que não aceita este tipo de injustiça. Mesmo que isso seja positivo para a contextualização cultural, o fato acaba confirmando a desconstrução do objetivo do personagem.

O excesso de simplicidade em algumas soluções e a mudança de conceitos acaba diminuindo o potencial da história. A proposta de Kóblic é interessante em mostrar um ex-militar tentando se exilar da ditadura na década de 1970 na Argentina, mas seu senso de justiça confuso – onde em um momento consentia as ordens durante os voos da morte, e em outro não aceitava as ditas injustiças do homem bruto – acabam prejudicando uma história interessante. Kóblic poderia ser melhor, mas não faria tanta diferença se houvessem mudanças no roteiro. Pois a sua história – mesmo que interessante – tinha muitas limitações.

A direção de Sebastián Borenztein é perfeita para a ambientação do longa que tem uma visão calma e detalhista para uma cidade pacata e de poucos habitantes. O roteiro consegue se encontrar e finalizar bem alguns arcos do filme e sabe entregar um drama competente em alguns momentos. Kóblic deixa a desejar e fica apenas no meio termo, com pontos positivos e negativos que acabam se comprometendo.

Avaliação

Legenda: 1 estrela: horrível/ 2 estrelas: ruim/ 3 estrelas: bom/ 4 estrelas: muito bom/ 5 estrelas: excelente

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Comentários

Editor-chefe e criador da Matinê Cine&TV, estudante de Jornalismo, leitor, cinéfilo e seriador. Fã de Harry Potter, O Senhor dos Anéis, Planeta dos Macacos, Star Trek e Star Wars. Na TV The Walking Dead, Game of Thrones, Shameless, Jessica Jones são alguns dos seus favoritos.

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