Crítica | A Garota no Trem traz uma história arriscada e ótima atuação de Emily Blunt

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A adaptação cinematográfica da obra de Paula Hawkins chega carregada de um triste drama, uma história até certo ponto pesada. O longa, A Garota no Trem, se arrisca de mais, cria uma bola de neve gigante, levantando uma grande dúvida antes do terceiro ato: será que o roteiro de Erin Cressida Wilson (Homens, Mulheres e Filhos,  série Vynil da HBO) irá fazer sentido e desmembrar a história de uma forma digerível para o público?

Emily Blunt vive Rachel Watson. A personagem vivia quase que uma utopia romântica, mas como nem tudo é flores ela se vê completamente perdida após o fim do seu relacionamento com Tom (Justin Theroux), que a trocou pela amante Anna (Rebecca Ferguson), com quem teve uma filha. Após o término, Rachel vive em devaneios, e um deles é viajar de trem todos os dias e ficar fantasiando a vida das pessoas, além de rever a antiga casa com o ex-marido e a atual mulher. Rachel está completamente desequilibrada e perturbada emocionalmente, passa boa parte do dia alcoolizada, o que perturba ainda mais o seu entendimento dos fatos.

Blunt consegue dar vida a um personagem difícil e encanta em tela. A atriz deixa visível as camadas da personagem, que sofre com a dor da perda de tudo aquilo que havia conquistado, somado com as dúvidas da própria sanidade. A personagem se afunda na história ao descobrir do desaparecimento de Megan (Haley Bennett) – que trabalhava como a babá de Anna -, a qual Rachel observava em constante romance e achava que a menina tinha o homem dos sonhos. É aí que entra uma reflexão simples e interessante: as aparências realmente enganam. Megan era casada com Scott (Luke Evans de O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos e do horrível Drácula: A História Que Não Te Contaram, de 2014), e por trás do aparente romance maravilhoso que Rachel enxergava do trem, a menina vivia sob um relacionamento abusivo, cheio de ciúme. Scott era um homem possessivo, controlava tudo na vida do casal. Megan aceitava isso, de certa forma não gostosa e nem desgostava, mas se colocou em uma zona de conforto, onde não se importava mais com a atitude do marido. A partir desse momento o longa revela-se inteiro ao público feminino. Não faz de propósito a figura do homem ser o vilão da história, mas por trazer há um drama intenso que consegue impactar muito mais as mulheres. Estas são capazes de se colocar ainda mais no lugar das personagens, e absorver melhor o que a história retrata.

A história, mesmo carregando um desenvolvimento confuso por apresentar três pontos de vista diferentes e que possui em pouco linearidade em suas narrativas, consegue ainda instigar, pois a intenção de quem está assistindo é entender o que está acontecendo. Afinal o que o público quer é uma história que faça sentido. E esta é a maior dificuldade de A Garota no Trem: fazer sentido.

a-garota-no-trem-02Erin Cressida Wilson, a roteirista do longa, gosta deste tipo de história. A Garota no Trem lembra um pouco o tipo da trama abordada em O Preço da Traição, vitimando algumas figuras e escandalizando outras. O que acontece aqui, é uma história cheia de subtramas e ao chegarem ao terceiro e longo ato começam a se completar e a fazer sentido, pois a própria protagonista começa a entender o que realmente aconteceu, e é a busca pela verdade de Rachel (Emily Blunt) que ajuda na digestão da história. O risco que o longa muito bem dirigido por Tate Taylor (Histórias Cruzadas, Planeta dos Macacos de 2001) corria era de não saber finalizar tão bem a história, e ao invés de ter algo mais enxuto que desse o real entendimento da obra, o longa se atrapalha um pouco e demora para em si chegar ao sem final. Fora isso a fotografia gélida é muito bonita, e casa muito bem com o clima e o toma do filme.

Apesar disso, fica um saldo positivo para uma trama de suspense e mistério bastante competente nestes dois aspectos. Emily Blunt é o destaque da trama. O drama vivido pela personagem desde de suas fantasias até a descoberta de suas memórias manipuladas pelo ex-marido, deram uma atuação primorosa à atriz. Assim como a incompreendida Megan, vivida por Haley Bennett, que a tudo questionava e tinha uma personalidade perdida na vida. Allison Janey (da série de comédia Mom) faz a detetive Riley, que adiciona um tom interessante a investigação da história, e desenvolve uma relação interessante com Rachel, fazendo a personagem de Blunt iniciar uma redenção pessoal bonita de assistir.

A Garota no Trem traz uma trama cheia de artimanhas preparadas para prender a atenção de quem se interessar pela história. O público irá acompanhar o drama de três mulheres, três pontos de vistas diferentes, até que tudo tenha algo em comum: um homem. A figura deste homem desmancha um pouco tudo aquilo que se vê construído antes. Uma história muito boa, que acaba nas mãos de um cafajeste abusivo, que troca de mulher assim como troca de camisa.

Avaliação
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Comentários

Editor-chefe e criador da Matinê Cine&TV, estudante de Jornalismo, leitor, cinéfilo e seriador. Fã de Harry Potter, O Senhor dos Anéis, Planeta dos Macacos, Star Trek e Star Wars. Na TV The Walking Dead, Game of Thrones, Shameless, Jessica Jones são alguns dos seus favoritos.

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