Crítica | Capitão Fantástico

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Matt Ross surpreende e acerta nas pequenas coisas
Capitão Fantástico (Universal Pictures)
Divulgação/ Universal Pictures

Se há um adjetivo que resume em uma só palavra este filme, o mesmo está em seu próprio nome. Capitão Fantástico é uma obra simples, que traz uma história despretensiosa e natural. Quando um roteiro se compromete em apenas deixar que a mesma se conte por si só, a trama consegue ser ela mesma acima de qualquer intensão.

O acerto do filme de Matt Ross é ser autêntico.A história de uma família totalmente única, desde os nomes inventados para valorizar a existência de seus membros no tempo e espaço até mesmo a forma adaptada em uma nova maneira de viver. Regidos por Ben, Viggo Mortensen, as crianças tem uma vida quase utópica dentro da sociedade capitalista, que aqui é sutilmente criticada pela forma em que o consumo absurdo influi no modo de vida das pessoas. Assim como é feito um contraste perfeito entre saber tudo e não saber nada.

Há cenas naturalmente emblemáticas que calam o pensamento sobre qualquer ideologia – além daquelas que chocam emocionalmente, vide aos momentos musicais, fechados com chave de ouro ao som de Sweet Child O’ Mine. O ativismo é retratado de forma simplista com o pensamento do pai da linguística moderna, Noam Chumsky. A figuro do filósofo é tão importante quanto a de Jesus Cristo no natal. Mas com um embasamento certeiro, Ross crítica, mas se deixa ser criticado. A postura que o longa se permite apresentar, torna-se correta ao abordar direitos de expressão e a liberdade, sendo assim, o ato de criticar o mundo como ele é, é igual a deixar o mundo criticar a família de Ben pela forma que escolheram ser. Mesmo assim, o preconceito com o desconhecido fica evidente o tempo todo.

Viggo Mortensen será sempre o inesquecível Aragorn da trilogia O Senhor dos Anéis, mas aqui, como Ben, o Capitão Fantástico também será sempre lembrado. O personagem não centraliza a figura interpretativa dos acontecimentos apenas no olhar do pai que criou seus filhos, mas permite que os olhos vejam pelos filhos criados pelo pai. Com isso, o orgulho paterno entra em contraste quando a admiração e reconhecimento dos filhos, que entram em cena ao exaltar o esforço do pai em dar-lhes uma vida diferente, correta, saudável e de puro conhecimento. O Capitão Fantástico se permite educar, deixar que suas “crias” tenham a liberdade de seguir uma ideologia, mas a utopia criada por Ben e Leslie ao formar um sistema de vida único acaba sendo uma imperfeita distopia.

O conhecimento vem da escola e a educação vem casa. Mas quando o conhecimento vem de casa, da onde virá a educação? Aprender física quântica, ler livros filosófico, entender o pensamento marxista com menos de 15 anos de idade, tornam qualquer criança um membro intelecto acima do normal. Mas ao lado de tanto conhecimento há a falta de experiência comunicativa. A timidez vai muito além do simples medo de falar com alguém e alcança níveis maiores ao ser, na verdade, a ausência do “saber” de se relacionar com outras pessoas.

“Os poderosos controlam a vida dos sem poder. É assim que o mundo funciona. É desleal e injusto.”

É disso que se trata Capitão Fantástico, uma história que apenas acontece, mostrando a dificuldade que a sociedade “comum” tem de aceitar o diferente, e o medo que o “diferente” tem de ser abduzido pelos costumes que condena. É ao sair de sua floresta com seus filhos, que Ben mostra a eles o mundo real, onde as crianças enxergam a verdade naquilo que aprenderam. Com naturalidade, o roteiro de Matt Ross mostra os defeitos do mundo, restrito apenas a cultura americana do alto consumo, seja de bens materiais ou de alimentos, fazendo a comparação de pessoas gordas com hipopótamos – revelando o espanto das crianças que questionam-se sobre os seus semelhantes acima do peso estarem doentes. Assim como é a reação dos mesmos ao terem contato com o video game pela primeira vez, assistindo um simples e chocante jogo de luta.

Ao fim, tratando tantas divergências ideológicas, Ross mostra que é possível adaptar este modo de vida criado por um cara e sua mulher, dois hipies que se vestem como se ainda estivessem nos anos 80, no mundo como ele é hoje. Mesmo criando pequenos “gênios”, os mesmos podem ter uma vida “normal” – nos moldes da cultura comum da grande sociedade. Capitão Fantástico é grandioso em sua simplicidade, e acerta nas pequenas coisas que constroem algo muito maior.

Avaliação

(Maravilhoso)

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Comentários

Editor-chefe e criador do Matinê Cine&TV é estudante de Jornalismo, leitor, cinéfilo e seriador. Declarado fã de Harry Potter e O Senhor dos Anéis, Matheus, adoraria viver um apocalipse zumbi em TWD, ou lutar contra os exércitos de Westeros em GoT, mas se contenta em assistir essas e outras dezenas de séries na vida real.

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