Crítica | Silêncio

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Imagem: Divulgação/ Imagem Filmes

Quando falamos em Martin Scorsese, lembramos logo de seus grandes filmes em Hollywood, onde este quase sempre beiram a barreira do thriller. Mas em Silêncio o diretor mostra mais uma vez sua flexibilidade em lidar com diferentes tipos de temas e propostas em uma única história.

O longa é baseado no livro do escritor japonês Shûsaku Endô – publicado em 1966. Desde que Scorsese leu o livro pela primeira, vez há mais de 20 anos, vem trabalhando na produção do longa-metragem. Por isso o filme está sendo tratado como “o trabalho da vida de Scorsese”.

Um filme focado em temas religiosos tende a ser rejeitado/esnobado por grandes diretores, por mexer com classes nacionais e internacionais. Dessa forma, a obra não sendo bem executada e representativa se torna alvo de duras criticas dessas classes, mas aqui o filme traz ao público a religiosidade aflorada, e principalmente a fé. Ele nos faz mergulhar nesse mundo vasto e infinito, sem deixar de ser didático, quando um dos seus grandes objetivos é nos fazer refletir sobre o tema.

A obra mostra a história de dois padres missionários católicos portugueses, Padre Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) e Padre Francisco Garupe (Adam Driver), que viajam para o Japão do século XVII em busca do seu mentor, Padre Cristovão Ferreira (Liam Neeson) – este desapareceu enquanto levava o cristianismo para o país. Tal prática era totalmente abolida e condenada – inclusive com execução – no Japão, na época extremamente budista.

Na Bíblia Sagrada diz em Hebreus 11:1 que “a fé é a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos”. A segunda parte do versículo é tratada com foco e insistência nesse filme, em todo momento o espectador é forçado a acreditar que diante dos problemas enfrentados pelo Padre Rodrigues, ele desistirá ou no mínimo uma atitude agressiva perante a sua crença. Entretanto, no personagem construído brilhantemente por Andrew Garfield, Scorsese deixa escancarada a brutal semelhança com o próprio Jesus Cristo. Tal comparação é feita com clareza pelo público à medida que o personagem avança na sua trama cheia de altos e baixos.

O cunho reflexivo fica exposto a partir do momento em que o conflito interno do personagem de Garfield se torna o motor de propulsão da trama do filme. Scorsese é católico confesso, e trata com garra a narrativa do longa. Em dados momentos, porém, pode-se achar que há um certo deboche da parte do diretor por tanta semelhança com acontecimentos bíblicos, mas esse pensamento transforma-se em ignorância quando percebemos tamanho feito em passar a mensagem necessária.

Se por um lado mergulhamos no mesurado e rico roteiro de Jay Cocks (já experiente em trabalhos de ScorseseGangues de Nova York e A Época da Inocência), do outro ficamos maravilhados com a perfeição de Andrew Garfield em entregar seu personagem que tem o maior tempo de tela. Ele prova, mais uma vez, que 2016 foi sim o seu ano, sendo inclusive indicado ao Oscar por Até o Último Homem de Mel Gibson.

Imagem: Divulgação/ Imagem Filmes

A perfeição dessa obra não está apenas na complexidade temática do roteiro, se fazendo presente também em seus aspectos técnicos, como: maquiagem, figurino, e na incrível ambientação local da história. As locações, a principio, causam certa estranheza e tiram o fôlego de tão belas. Mas nada se compara a magnifica fotografia do mexicano Rodrigo Pietro, fazendo jus a indicação do Oscar de melhor fotografia. A perfeição deste aspecto fica a vista em diversos momentos, contudo, uma cena chama a atenção: a crucificação de três pessoas em pleno mar revolto do Japão. É certamente uma das cenas mais emblemáticas do cinema nos últimos anos.

Dessa vez, ao contrário do que estamos acostumados, Martin Scorsese declina de uma trilha sonora, apoiando seu filme nos sons e principalmente no próprio silêncio. A decisão do diretor foi correta, aumentando consideravelmente a carga dramática e a facilidade que mesmo apresenta pontos para a reflexão reflexão.

Em 2h40min de exibição, o filme é dividido em três partes, que são facilmente detectadas pelo espectador. Durante o desenrolar da trama o público é sujeito a várias emoções, como a estranheza para com o ambiente e o horror com a violência exposta – como uma degolação bem em frente às câmeras, compaixão e alivio pelos personagens. O filme é totalmente de cunho pessoal do diretor, portanto, se ao fim de Silêncio a seguinte questão vier à tona: “o que mais mantém uma pessoa firme diante de terríveis acontecimentos, senão a fé?“, o propósito de Martin Scorsese estará cumprido.

Avaliação

(Excelente)

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Comentários

Leonardo Santos – 22 anos – Fixado em HQ’s, séries e filmes baseadas em quadrinhos como Demolidor, Flash, Agents of Shield e Potterhead desde a infância. Apaixonado pelo jornalismo, viu a oportunidade de juntar as coisas que mais ama, se tornando um dos editores do Matinê Cine&TV.

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