Crítica | T2 Trainspotting

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Remakes e continuações de filmes antigos estão se tornando cada vez mais comuns no cinema, não apenas em Hollywood. Porém, T2 Trainspotting, mesmo que encaixado nestes acontecimentos, se torna uma obra singular porque foi feito, exclusivamente, para prestar uma homagem à si mesmo, ou melhor, demonstrando respeito e carinho pelo seu filme original lançado em 1996. Danny Boyle, basicamente, escreve uma carta de amor à si mesmo 21 anos depois.

Trainspotting – Sem Limites (1996) é incrível em sua particular visão sobre a juventude e a celebração da vida ao retratar um grupo de jovens de uma forma crua, sem poupar o público da época de ver cenas horrendas sobre a própria humanidade. Ainda assim, o longa fazia uma imersão mental que lembrava o molde de Kubrick em Laranja Mecânica, porém, de um jeito original e psicodélico – a cena em que Mark entra no vazo é o melhor exemplo disso. Mas, eis que chega T2 Trainspotting com uma visão diferente daquele mundo, muito mais madura, sincera e consciente do que é a retomada da vida daqueles mesmos jovens 21 anos depois, sem tentar ser maior ou melhor que o seu cânone.

Com o elenco original de volta, T2 prende o seu primeiro ato inteiro em mostrar o que aconteceu depois que Mark foi embora com às 16 mil libras, não apenas focando no protagonista, mas também se importando em contar como isso afetou a vida de Spud (Ewen Bremner), Sick Boy/Simon (Jonny Lee Miller) e Franco (Robert Carlyle).

O roteiro é de longe menos original e influenciador do que o primeiro filme, até porque não há a intenção de ditar uma nova moda – aliás, o filme de 96 é claramente uma das principais influências de séries como Skins e Shameless, tanto nas versões britânicas como nas norte-americanas. A história, até certo ponto, é bastante comum e aventuresca ao retratar amigos que se encontram depois de muitos anos, onde há mágoa e rancor, mas acabam se unindo para criar algo rentável e como o próprio filme diz: “Primeiro a oportunidade, depois a traição“. Com isso, é perceptível que a trama não incorpora a complexidade narrativa de seu primogênito.

 

Carregada de diálogos, que as vezes não precisavam estar ali por trazerem explicações irrelevantes para quem já conhece a fórmula do primeiro filme, T2 é um longa que fala muito bem quando não diz nada. Apesar de ter esse excesso de diálogos, a clima nostálgico é conquistar e aconchegante, sendo assim, independente de qualquer coisa, quem teve sua vida marcada por Trainspotting (1996) vai se sentir em casa com a continuação.

Danny Boyle, mais uma vez, mostra todo seu talento e habilidade na direção sem deixar de surpreender com cenas inusitadamente peculiares, mas de uma profundidade conceitual incrível. A montagem/edição, talvez, seja o grande ponto forte do filme – na parte técnica -, onde há uma mescla profundamente marcante entre as cenas atuais com momentos icônicos do primeiro filme, que realçam toda a nostalgia e saudosismo da obra. É impossível assistir ao filme sem ter brilho nos olhos, pois a cada cena que passa a carta de amor de Danny Boyle ao seu público vai ficando mais intensa.

T2 Trainspotting também se aproveita da modernidade do fan service e além de fazer referências sutis à si mesmo, o longa ainda reproduz algumas das melhores cenas do primeiro filme. Com toda essa exaltação de sua obra original, T2 não é abusado à ponto de se copiar, ele é suficientemente maduro para deixar seu público consciente de que ele é apenas uma grande homenagem.

O elenco, que retorna muito bem, reforça ainda mais a notalgia, afinal seria impossível fazer uma continuação sem os mesmos atores, nem teria motivo para tal ato. Ewan McGregor convence como um “novo” Mark, mas sua atuação não é tão boa quanto a de 21 anos atrás – muito disso se deve a mudança do próprio personagem. Ewen Bremner é o que possui o melhor arco dramático entre os personagens, Spud é o mais fragilizado e quem mais sofreu com a própria vida. Jonny Lee Miller prova que ninguém, além dele, poderia ser Simon/Sick Boy, assim como Robert Carlyle que entrega a segunda melhor atuação da carreira – a primeira em 1996, com o próprio Trainspotting.

T2 Trainspotting não tem o melhor roteiro do mundo, mas ao bem da verdade, mesmo que caia em desdobramentos comuns, o longa ganha força do meio para o fim, onde relembra as loucuras psicodélicas e imersivas do seu primeiro filme. Assim, combinado com toda a nostalgia e as homenagens, as boas intenções de Danny Boyle e seu elenco são as melhores possíveis, por tanto, é impossível não se sentir extasiado e com um calor no coração depois de ver essa carta de amor traçada com muito carinho – assinada por Danny Boyle e equipe.

Avaliação

(Ótimo)

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Comentários

Editor-chefe e criador da Matinê Cine&TV, estudante de Jornalismo, leitor, cinéfilo e seriador. Fã de Harry Potter, O Senhor dos Anéis, Planeta dos Macacos, Star Trek e Star Wars. Na TV The Walking Dead, Game of Thrones, Shameless, Jessica Jones são alguns dos seus favoritos.

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