Crítica | A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell

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Imagem: Divulgação/ Paramount Pictures

A reflexão implementada nas páginas do mangá criado por Shirow  Masamune em 1988 e traduzidas com fidelidade no anime de Mamoru Oshii em 1995 misturam-se na mente de Rupert Sanders e transformam-se em A Vigilante do Amanhã – Ghost in the Shell. Com reflexões densas e que dependem muito mais do entendimento silencioso do ser humano do que da exposição conflituosa de cada um no amine/mangá, a adaptação live-action consegue descomplicar as reflexões filosóficas sobre o ser de forma límpida e acessível ao público.

Além do acerto do roteiro, Sanders ainda conseguiu encontrar boas soluções visuais – desde o retrato moderno e pós-revolucionário da cidade composta pelo contraste entre grandes prédios e hologramas que exaltam a presença costumeira da tecnologia na vida humana, dentro deste contexto, até mesmo nas pequenas atualizações do corpo humano e seus aprimorados.

A história de Ghost in the Shell, incrivelmente visionária quando criada há 29 anos atrás, sofre pequenas modificações ao longo da organização narrativa, mas que não muda o ritmo dos acontecimentos, misturando elementos do desenvolvimento do anime com diálogos fielmente retirados de sua obra original. Scarlett Johansson, que vive Major no longa, traz uma personagem muito mais conflituosa e tênue em relação a Motoko séria e divertida do mangá, e muito mais próxima daquela vista no anime – que exalta mais os conflitos do ser-máquina. Johansson consegue equilibrar as sutilezas da essência da personagem, alternando as reações humanas sobre a ética com o comportamento cético do corpo ciborgue – o qual a personagem já havia aceitado, aliás, ainda tratando sua parte humana como falhas de um sistema quase inexistente, já que este é proveniente do próprio cérebro humano.

Sanders acerta em toda a composição de sua obra, pois material para servir-lhe de base não faltou e ainda assim, é incrível que o diretor tenha mantido a singularidade do longa. A Vigilante do Amanhã não esquece da sua origem, não deixa de referenciá-la, mas mostra desde o começo que sabe o que pode ser, mesclando elementos capazes de agradar o fã e conquistar um novo público – principalmente com Scarlett Johansson chamando as atenções como protagonista.

Com a tentativa de tornar a trama muito mais acessível aos olhos do grande público, o longa apresenta uma história imersiva, dada a profundida que pretende ir alcançado ao longo do seu desenvolvimento – dando tempo para o espectador raciocinar sobre aquilo que acontece e pode vir a acontecer -, e se mostra visualmente bem resolvido com o uso de efeitos mais práticos do que especiais. Assim, o diretor parece mais confortável em achar soluções mais realistas dentro de uma história fantasiosa, ao mesmo tempo que se faz tão real e presente. Prova disso é que no único momento em Sanders recorre ao CGI, o resultado fica distante de toda a qualidade visual do longa justamente no ato final.

O longa não deixa de abordar o descobrimento da verdade sobre o seu próprio eu, refletido nos desdobramentos da história de Major e sua verdade pessoal. Mas o acerto narrativo também está nas poucas e objetivas explicações, principalmente por ser uma história que fala por si só e transmite as peças de seu quebra-cabeça com a busca do auto-conhecimento. Sem subestimar a mente o público, o filme vai à fundo ao refletir o que somos, o que fazemos e por quê fazemos, mostrando que a mente humana pode ser tão perigosa quanto a inteligência artificial, mas também deixando claro que a criação não é algo exclusivo de Deus. E assim quebrando, de certa forma, o paradigma: “na natureza nada se cria, tudo se transforma.”.

Reproduzindo cenas emblemáticas das outras mídias ao qual o longa se inspira, Ghost in the Shell não desperdiça o seu material original, sendo visível que há uma reorganização narrativa de acontecimentos que se tornam mais suscetíveis e condensados, perdendo a subjetividade filosófica das obras anteriores. Rupert Sanders, apesar de ter pouco aproveitamento em cenas de luta pouco impressionantes (em duas raras exceções), consegue o acerto visual que a história necessitava. Entre outros acertos, está também o uso e aproveitamento dos personagens, além da escolha do elenco para os respectivos papéis. Sendo assim, o longa se faz totalmente equilibrado entre história e o show visual à parte de toda a sua ambientação local.

A Vigilante do Amanhã chega para provar que fazer uma adaptação fiel, original e singular é possível nos cinemas hollywoodianos, principalmente quando há a disposição de fazer com que o material não caia em um conto caça-níquel tipico de Hollywood. O live-action de Ghost in the Shell é autêntico e auto-suficiente no conjunto da obra, as boas atuações são fruto do roteiro que sabe muito bem para onde ir com essa história. E neste caso, uma continuação é fruto da qualidade da obra, e não da pretensão do estúdio. Superando as dificuldades de adaptar a história complexa de Shirow, o longa se sobressais nos detalhes e mostra reflexões profundas sobre a humanidade de forma atual, causando uma forte imersão dentro deste universo tão próximo da vida real.

Avaliação

(Ótimo)

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Comentários

Editor-chefe e criador da Matinê Cine&TV. Fã de Harry Potter, O Senhor dos Anéis, Planeta dos Macacos, Star Trek, Star Wars, Marvel, DC Comics. Na TV The Walking Dead, Shameless, Jessica Jones, The Handmaid’s Tale, entre outras, são algumas das suas favoritas.

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