Crítica | Corra!

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Get Out, ou Corra!, vem conquistando a internet desde que suas primeiras e surpreendentes críticas foram reveladas nos EUA, ganhando ainda mais destaque após a divulgação do primeiro trailer. Assim, o longa começou a construir um caminho de sucesso, causando curiosidade no público, o qual ainda não havia assistido. E dessa maneira, despretensiosa, Corra! mostra com facilidade o motivo de tanto alvoroço. Trata-se de um suspense muito bem construído pelo humorista Jordan Peele (que escreve e dirige o longa), onde a história misteriosa se mostra promissora a cada minuto que passa.

Corra! começa muito parecido com “Entrando Numa Fria“, com um jovem fotógrafo indo conhecer a família da namorada, sem saber o que esperar dos pais da garota. A história realça o racismo como uma de suas locomoções principais e com a inteligência de Peele. Corra! tira sarro de todas as formas possíveis sobre o assunto. Porém, mesmo com o humor negro em tom de deboche, o filme se preocupa em mostrar como essa atitude é banal para alguns e como ela afeta os negros. Com isso, é aqui que o longa se mostra um suspense de qualidade, ao contrário do que a publicidade afirma – um terror inovador.

A história soa cínica desde que o casal chega ao seu destino – a casa dos pais de Rose -. Sem deixar de levar sua trama a sério, o filme usa ao seu favor a sátira imposta pelo cinismo dos personagens, onde há um contraste entre o mundo real e alguns ingredientes totalmente fora da realidade. É como se uma comédia insana (ao estilo Unbreakable Kimmy Schmidt da Netflix) estivesse dentro de um suspense que traz oscilações de uma história de mistério e um thriller psicológico. Assim, com o uso inteligente dos diversos conceitos do roteiro assinado por Peele, Corra! encontra um tom sério e ao mesmo tempo debochado, que causa apreensão e risos nervosos como reação aos absurdos vistos em tela – como quando uma pessoa branca conhece um negro e acredita que sua amizade com Tiger Woods (jogador de Golfe) fosse aproximá-los, por exemplo.

O humor que Peele demonstra no roteiro é totalmente sagaz e até mesmo safado. O texto dos diálogos é tão despretensioso que dificilmente o espectador sabe o que esperar da próxima frase dos personagens. Isso, apenas facilita o chocante trabalho do longa, que faz das ideias mais absurdas a próxima realidade da história. Além disso, Peele ainda encontra o equilíbrio entre o seu filme de suspense e os pequenos esquetes de Rod, que contam com o timing cômico certeiro de LilRel Howery.

Além de todos os acertos do roteiro e da direção promissora de Peele (que esbanja personalidade em seu primeiro longa-metragem), Corra! também conta com as sábias escolhas de elenco. Daniel Kaluuya, que Chris, ganha de presente um protagonista muito bem escrito e com desenvolvimento formidável no arco final – mudando completamente o panorama do que aconteceu antes do ato final. Assim como Kaluuya, Allison Williams (da série Girls da HBO) também é presenteada com Rose, e assim como Chris, ela apresenta mudanças surpreendentes na segunda metade do filme – roubando a cena em um momento em que o cinismo e a manipulação do roteiro ganham proporções ainda maiores.

Jordan Peele, como diretor, ainda se mostra habilidoso com a câmera na mão, o que é quase espantoso por se tratar da sua estreia na direção de longa-metragem. Porém, tudo soa de forma natural, é como se Peele já fizesse isso há muitos anos. Assim, o promissor diretor abusa de alguns planos fechados, que mostram fortes expressões dos seus personagens, dando destaque a todo o incomodo de alguns e a robotização sentimental de outros – mas sempre deixando claro que ali dentro (das pessoas) há algo sendo escondido, e este é o mote principalmente o surpreendente terceiro ato que Corra! apresenta.

A vantagem de Corra!, que vai além do planejamento formidável da obra, está também quando o filme mostra a realidade da sociedade americana de forma irreal, como se o diretor se apossasse da frase “toda brincadeira tem um fundo de verdade“, para incrementar a premissa da obra. Peele acerta nos mínimos detalhes, causa incômoda e desconforto em quem assiste, e mesmo que deixe o público rindo de nervoso, Corra! não esquece de divertir com suas verdades disfarçadas de mentiras.

Corra!, ao lado de Fragmentado, são as ditas “gratas” surpresas da sétima arte em 2017. Afinal, ambas as ideias são fruto da mente fértil dos seus diretores e roteiristas, entretanto, Jordan Peele se mostra ainda mais promissor ao combinar novos elementos ao suspense absurdo que se desenvolve em Corra!, e este acaba sendo um agouro com cheiro de novidade e frescor para o suspense no cinema.

Avaliação

(Ótimo)

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Comentários

Editor-chefe e criador da Matinê Cine&TV. Fã de Harry Potter, O Senhor dos Anéis, Planeta dos Macacos, Star Trek, Star Wars, Marvel, DC Comics. Na TV The Walking Dead, Shameless, Jessica Jones, The Handmaid’s Tale, entre outras, são algumas das suas favoritas.

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