Sessão P&B | Ladrões de Bicicleta, o cotidiano pós-guerra nas lentes do neorrealismo

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Imagem: Imdb

Há muitos exemplos das graves consequências da Segunda Guerra no cenário mundial, dentre eles a visão de países destruídos e povos assolados pelo medo e insegurança do que viria a seguir. Ao final desta trágica fase, foi possível ver o resultado da inconsequência humana e o desenrolar de singelas histórias protagonizadas por pessoas comuns que buscavam, de alguma forma, retomar suas vidas. A Sessão P&B desta semana transporta-se para a Itália ao final da Segunda Guerra e apresenta o clássico Ladrões de Bicicleta (Ladri di Biciclette, 1948), dirigido pelo célebre Vittorio de Sica, um dos maiores ícones do neorrealismo italiano. Tal movimento foi responsável por representar, principalmente em obras cinematográficas, o verdadeiro contexto pós-guerra dentro das histórias ficcionais.

Ladrões de Bicicleta traz o reflexo da busca humana pela reconstrução de uma estabilidade que foi destruída. O filme faz isso através da tocante história de Antônio Ricci (Lamberto Maggiorani), um personagem que, longe de sonhar com grandes triunfos, apresenta como único propósito a ânsia de preencher uma vaga de emprego, objetivo que se mostra demasiadamente improvável em uma época de penúria. Passam-se três semanas de espera, em aproximadamente três anos de desemprego, até que lhe seja oferecida a oportunidade de trabalhar como colador de cartazes, vaga que exigia do empregado apenas a posse de uma bicicleta.

O protagonista se vê em um dilema, pois não possui mais sua velha bicicleta, a qual foi penhorada dias antes para que ele e sua família tivessem o que comer. Na impossibilidade de recusar a proposta, Antônio aceita a função, alegando de forma contraditória que não possui tal recurso. Nesta situação, é apresentada a figura de Maria Ricci (Lianella Carell), esposa de Antônio, responsável por penhorar os lençóis da casa para recomprar a bicicleta do marido. Quando a situação parece finalmente favorável ao herói, ele vê um novo problema surgindo quando, no primeiro dia de trabalho, tem sua bicicleta roubada, fato que impulsiona a história para sua verdadeira finalidade: estampar a decadência da humanidade frente às consequências de um confronto mundial e refletir , em momentos delicados como este, que a coisa mais banal pode ser determinante para a construção de um futuro melhor.

Antônio e seu filho Bruno Ricci (Enzo Staiola) partem em uma jornada por Roma em busca do objeto roubado. Na rota traçada por eles revela-se nitidamente que não são apenas os dois protagonistas que atuam no palco dessa ruína social, colocando em evidência duras histórias paralelas que também se projetam nesse cenário infeliz. É importante destacar ainda que, apesar de em primeiro plano termos uma história de ficção, as gravações foram feitas a céu aberto, ou seja, toda a destruição vista nos ambientes externos, bem como os figurantes de cada sequência, nada mais são do que o verdadeiro povo italiano na mais pura realidade da época.

Imagem: Imdb

O filme não apresenta o grandioso padrão de Hollywood, visto que sua qualidade técnica é por vezes defasada e, seu elenco, composto por amadores. No entanto, esses atributos estão longe de desmerecer a obra, considerando que os mesmos foram responsáveis por dar a ela características sutis de um filme documentário. Os atores levam para as interpretações extensões de si mesmos e de suas próprias vidas. Lamberto e Enzo não são apenas protagonistas em busca de uma mera bicicleta, ambos representam a determinação férrea de milhares de pessoas em busca do mínimo para viver. Não à toa, Ladrões de Bicicleta  sobreviveu à ação do tempo e se faz presente de forma marcante nos grandes nomes do cinema.

Vale à pena conferir este clássico do cinema italiano dotado de trechos emocionantes e com um potencial único, capaz levar ao público uma experiência de empatia e imersão em um contexto histórico decadente e verídico, onde as coisas mais triviais –tal qual uma bicicleta- poderiam ser postas acima das necessidades de qualquer ser humano e este, por sua vez, colocaria em xeque até mesmo sua dignidade para reerguer a antiga estabilidade impiedosamente varrida pelos ares da guerra.

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Comentários

Kaliana Bueno, 19 anos. Estudante de roteiro, sonha em ganhar a vida através da escrita. Para isso, decidiu mergulhar em sua repentina paixão pela sétima arte e usá-la como inspiração para entregar seus textos ao mundo.