Crítica | Ao Cair da Noite

Compartilhe:Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on LinkedInShare on Google+Email this to someone

Ao Cair da Noite traz um novo fôlego ao terror no cinema e mostra que para se fazer um grande filme do gênero uma boa ideia e um bom diretor já bastam. Sem se contentar apenas com isso o longa brinca com os medos da mente, enquanto cria um eficiente terror psicológico, e este, por sua vez, muito inteligente baseado na simplicidade de sua premissa – uma família que vive no meio da floresta quando uma doença se espalha e eles precisam proteger o pouco que têm.

Trey Edward Shults (Krisha) comanda muito bem a narrativa imersiva do filme, provando que nem sempre uma obra precisa se explicar para ter qualidade. Ao fazer o terror, o diretor opta por sair do convencional e ao contrário das recorrentes possessões e famílias amaldiçoadas, Ao Cair da Noite emprega uma construção cheia de conflitos humanos mostrando o que o “ser” é capaz de fazer para defender os seus (neste caso a família) e para garantir a sua própria sobrevivência. O fator ainda é completado com a racionalidade do roteiro, que foge do que poderia se tornar sobrenatural ou duvidoso, e assim aproximando a história da realidade.

O terror apresenta méritos que refletem a competência e as escolhas certeiras do roteiro. Acertos estes que começam desde a abordagem da premissa, permeando pela escolha mais que correta do elenco e fechando com o conjunto da obra que é no mínimo excelente. Shults se destaca a todo o momento, mas é no perfeito uso da mise-em-scène que o promissor diretor impressiona. O “conjunto da obra” mostra uma construção de cenários e figurinos impecável, junto aos conceitos visuais da fotografia e de todos os ângulos usados pelo diretor, onde todo o valor técnico de produção não apenas conversa com o tema, mas tem muito a dizer sobre o que acontece do início ao fim do filme – algo que poucos longas do gênero conseguem fazer hoje em dia, mas que Ao Cair da Noite traz com extrema competência.

Se tecnicamente temos um filme impecável nos conceitos básicos e principais de sua cinematografia, há também o acerto nas atuações. Com a proposta de manter o pé no chão, Ao Cair da Noite não foge da realidade, tanto da nossa como também daquela já estabelecida pelo longa. O interessante é que os únicos e breves momentos em que há um espace do realismo, é quando o próprio filme mostra as alucinações e paranoias de seus personagens. É um flerte muito inteligente por parte do roteiro, que usa a imaginação como a personificação dos maiores medos das pessoas.

Joel Edgerton é responsável por passar grande parte desta atmosfera, vivendo o sempre preocupado, e com razão, Paul. O ator, ganhador do Globo de Ouro de Melhor Ator por Loving, aproxima o público de todas as perturbações psicológicas do filme. Em contra partida, o jovem Kelvin Harrison personifica o medo e o temor daquilo que pode acontecer, a paranoia envolvente de seu personagem (Travis) é sem dúvida o que mais indaga e o que mais subverte o diálogo entre o real e o irreal.

É interessante perceber, também, a dedicação que o roteiro tem com o seu próprio público. Não é errado dizer que Ao Cair da Noite seja um filme para poucos, mais especificamente para aqueles que gostam de pôr suas cabeças para trabalhar, e, talvez, não para os outros que gostam de filme como papinha de bebê, ou seja, com tudo mastigadinho. Ao contrário disso, Ao Cair da Noite não subestima a inteligência alheia mostrando pequenos detalhes que podem decidir a sua trama no final, e isso acontece de modo claro e objetivo como uma gratificação para aqueles que estão realmente prestando a devida atenção na história.

Ao Cair da Noite ainda se sobressai nos conceitos básicos do terror, dá sustos (descentes, e não gratuitos) e brinca com a antecipação do medo e inquietação do público, de modo em que fica quase impossível prever quando vai se levar um susto ou quando o filme lhe fará roer as unhas de tanta tensão. O ambiente claustrofóbico contribui ainda mais com o clima e o tom conquistador do longa. Tudo isso muito bem aproveitado pelo seu diretor, que sabe quando precisa apenas deslizar a câmera para conduzir melhor a respectiva tensão, ou quando precisa aumentar suas proporções psicológicas pegando a câmera na mão e seguindo floresta adentro – assim evitando que a história se acomode em uma só condução.

Ao Cair da Noite não traz tanta qualidade como uma surpresa. Pelo contrário, ele mostra desde os segundos iniciais o quão enigmático, misterioso, eficiente, inquietante, claustrofóbico e desesperador pode ser, mas tudo isso é fruto de um trabalho primoroso de seu diretor que sabe o que quer fazer na história, e principalmente, sabe para onde ir com ela.

Assim como A Bruxa apresentou uma obra primorosa e incompreendida por muitos, Ao Cair da Noite segue este mesmo embalo com uma história mais diluída, e em comparação com o potencial clássico do ano passado, o de Trey Edward Shults consegue trazer aquela mesma subjetividade perturbadora para a sua rica história. Ao Cair da Noite, mesmo com pouco destaque, deve dividir o público, mas a falta de prestígio e reconhecimento não será um problema para o que deve ser o melhor, ou, pelo menos o mais inteligente e diferente terror de 2017.

Avaliação

(Excelente)

Compartilhe:Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on LinkedInShare on Google+Email this to someone

Comentários

Editor-chefe e criador do Matinê Cine&TV é estudante de Jornalismo, leitor, cinéfilo e seriador. Declarado fã de Harry Potter e O Senhor dos Anéis, Matheus, adoraria viver um apocalipse zumbi em TWD, ou lutar contra os exércitos de Westeros em GoT, mas se contenta em assistir essas e outras dezenas de séries na vida real.

Você também pode gostar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *