Crítica | Uma Família de Dois

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O cinema francês tende a trazer boas surpresas com seus dramas de ótima qualidade. Porém, em Uma Família de Dois podemos ver que assim como Hollywood, o cinema brasileiro ou o argentino, por exemplo, a França também pode apresentar obras irregulares, e essa talvez seja a palavra que melhor resume o novo filme de Omar Sy (Intocáveis).

O título nacional (Uma Família de Dois) faz todo o sentido dentro da história, que acompanha um motorista de barcos que vive na farra e um dia é surpreendido ao descobrir que tem uma filha, e ela ainda é deixada em seus braços pela mãe que vai embora de táxi. Assim, mostrando alguns desafios iniciais, o longa constitui a tal família de dois.

Ao contrário do que se poderia imaginar, a história foge de se tornar algo que traga o mesmo tom de sofrimento e melancolia de À Procura da Felicidade, por exemplo, e embarga em uma divertida comédia realista carregada de dramas pessoais que começam, levemente, a ditar o novo tom sério do filme.  Omar Sy é responsável por fazer a história não ser cansativa, sendo o seu carisma e simpatia, somados ao talento é claro, os principais motivos para que isso não aconteça. Gloria Colston, que vive a jovem Gloria, também faz um papel parecido dentro da trama. A jovem atriz acompanha Omar Sy, principalmente no carisma e simpatia, e certamente conquistará grande parte do público do filme.

Apesar do bom desempenho do elenco – ressaltando ainda o alívio cômico de Bernie, vivido pelo ótimo Antoine Bertrand, que apresenta um timing invejável para comédia -, o roteiro demonstra grande fragilidade a todo o momento. Mesmo que os personagens conquistem com facilidade aqueles que assistem ao filme, não se pode dizer que os mesmos sejam bem escritos ou que apresentem alguma novidade no gênero. Todos são clichês, mas boa parte acaba sendo salva pelo talento dos atores (este talvez seja o grande ponto forte do filme, o elenco).

O roteiro, ainda, consegue apresentar gatilhos fraquíssimos e difíceis de engolir para fazer com que a história se movimente. O retorno da mãe desgarrada, vivida por Clémence Poésy, por exemplo, é uma das cenas mais ridículas do ano. Fica claro o medo de usar o acaso, como virar a esquina e encontrar alguém que não era visto há 8 anos, porém, foi mais fácil mostrar uma pessoa que estava offline há quase 9 anos no Facebook, mas que entrou só para dizer que estava chegando. Mesmo que soe estranho, na prática é ainda pior, e é a partir daqui que o que havia de bom começa a desandar.

Hugo Gélin, o diretor, perde totalmente a mão e fica completamente confuso com o material que possui para trabalhar. A história ainda guardava uma reviravolta, que não pode ser chamada de plot twist, até interessante, mas que inicialmente apresentou um contexto errôneo por querer manipular a mente do público. Além de mostrar essa confusão, o jovem diretor de 37 anos teve boas intenções na tentativa de surpreender o espectador, mas o que acontece é uma série de enganações, acobertadas pela bela mensagem sobre viver a vida e amor incondicional.

O ato final é completamente desorganizado, o filme parece não saber a hora certa de encerrar a sua história, criando uma série de atropelos narrativos sem muito sentido. A cada minuto que passa, o filme desgasta mais, gira, gira, e gira de novo, sem ao menos chega a algum lugar. A intenção não fica clara em nenhum momento, a não ser que fosse apenas para dar mais “emoção” ao enredo final, porém, tais acontecimentos se destoam completamente do que foi visto antes.

Uma Família de Dois apresenta transições de gênero muito desordenadas. Em um momento assistimos a uma divertida dramédia, em outros vemos um drama familiar jurídico que não sabe o que quer. Assim, e apesar da premissa convencional, o longa francês vai desperdiçando o próprio potencial com o passar dos minutos, tornando a sua conclusão algo inicialmente difícil de engolir, mas depois que se aceita a baderna, fica mais fácil de assistir, mesmo que tamanhos problemas incomodem – afinal, um filme que começa bem e termina mal causa desconforto e decepção.

Poderia haver aqui um belo drama com uma história de peso, convencional, sim, mas que traria belíssimas mensagens que valeriam a pena o investimento (de tempo e dinheiro). Porém, Uma Família de Dois se deixa levar para algum lugar que nem o próprio filme sabe. As fragilidades do roteiro afundam a obra com força, impossibilitando o elenco talentoso de impedir que o pior aconteça. Por fim, Uma Família de Dois, pode encantar e emocionar, mas deixa claro que tinha potencial para ser algo muito melhor.

Avaliação

(Regular)

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Comentários

Editor-chefe e criador da Matinê Cine&TV. Fã de Harry Potter, O Senhor dos Anéis, Planeta dos Macacos, Star Trek, Star Wars, Marvel, DC Comics. Na TV The Walking Dead, Shameless, Jessica Jones, The Handmaid's Tale, entre outras, são algumas das suas favoritas.