Crítica | Death Note

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Imagem: Divulgação/Netflix

Death Note é um dos animes e mangás mais relevantes e inteligentes dos últimos 20 anos, e só isso já é um grande motivo para temer uma adaptação hollywoodiana da obra criada por Tsugumi Ohba e Takeshi Obata. E outro fator que nunca ajudou é o próprio histórico das versões americanas dessas obras provenientes da cultura pop japonesa, que além de passarem pelo processo de adaptação ainda ficam sujeitas a ocidentalização de sua história e personagens.

A obra original de Death Note é uma história densa, carregada de reflexões e debates sobre o peso da moralidade quando se tem o poder, literal, de decidir quem vive e quem morre. No entanto, o filme lançado pela Netflix no último dia 25 de agosto, é totalmente o oposto disso, uma obra vazia, que traz o mesmo tema, mas sem o compromisso de promover algum debate sobre o assunto.

O live-action dirigido por Adam Wingard até não merece uma comparação com a obra original, pois seria um ultraje tal atitude, mesmo que inevitável. Mas o processo de adaptação de Death Note para o filme da Netflix pode ser comparado com o mesmo processo utilizado para fazer um suco natural de qualquer fruta. É como colocar os pedaços da fruta no liquidificador e colocar água, depois de bater, o líquido fica abaixo da polpa, que tem o grande valor nutricional, mas como este suco é feito para o consumo de muitas pessoas, a polpa, que traria o melhor da fruta, é completamente descartada e para ajudar esses consumidores a engolir este suco ainda é feita a adição de açúcar.

Ou seja, não bastava apenas diluir a história, precisava também tirar tudo o que ela tinha de mais relevante e inteligente, fazendo da adaptação live-action um filme que transita em diferentes gêneros, onde nenhum deles consegue trazer uma identidade ao longa, que por sua vez parece totalmente desconjuntado ao misturar terror com uma comédia extravagante similar a de Todo Mundo em Pânico – e isso não combina.

Imagem: Divulgação/Netflix

A proposta de fazer com que Light Turner (Nat Wolff) e Mia (Margaret Qualley) tenham um romance é até aceitável dentro da proposta de um High School policial do filme, mas o maior problema é ver que o pouco de talento que ambos poderiam apresentar (principalmente Qualley, que já teve momentos ótimos em The Leftovers) é completamente jogado no lixo com dois personagens mal escritos, que se contradizem a todo momento e que não conseguem convencer como casal.

No filme, Light ganha, propositalmente, o Death Note, e antes de ter qualquer dilema moral sobre matar ou não uma pessoa, o personagem sai matando qualquer um que ele julgue merecedor de tal destino. Além disso, uma dos fatores que fazem da obra original uma das mais inteligentes dos últimos anos, é o contraste entre Light Yagami e as regras de uso do Death Note, coisa que o filme pouco respeita. O roteiro cria e modifica regras de forma fantasiosa e conveniente para que o filme se saia bem como entretenimento, e nem isso ele consegue. Além disso, é muito fácil ler a regra 21, depois a 47, e mais adiante a 89, só para ilustrar que existem algumas normas para usar esse Death Note, o que torna a premissa uma história quase banal.

No restante, o filme continua não se ajudando. Mesmo que se não fosse avaliado como uma adaptação de uma obra que ele não consegue representar, Death Note continuaria sendo um filme fraco, com roteiro problemático e um elenco que não se sustenta. Ao bem da verdade, e justiça seja feita, a única coisa realmente boa nisso tudo é a escalação de Willem Dafoe como Ryuk, único personagem que consegue manter parte da sua encantadora essência, além do visual bem resolvido e escondido durante o filme – o que é bom, pois ficando nas sombras a qualidade do efeito não precisa ser colocada a prova.

Imagem: Divulgação/Netflix

O diretor, Adam Wingard, pouco consegue conduzir a história. A cinematografia do filme, inicialmente, é interessante, usando ângulos pouco convencionais com a intenção de causar desconforto ao espectador. Porém, a filmagem e o que está sendo mostrado em cena não combinam, principalmente com a reação ridiculamente histérica de Light Turner quando vê o Ryuk pela primeira vez, e o que deveria ser assustador acabou sendo uma galhofa decepcionante. Wingard, ainda, usa de pequenas acelerações narrativas numa tentativa falha de apresentar pequenos detalhes sobre as consequências das atitudes de Light como Kira, mostrando que a intenção do seu filme nunca foi se aprofundar em dilemas morais, filosóficos ou de promover com algum tipo de debate ou reflexão.

O Death Note da Netflix nunca quis ser como a obra original, e até aqui é difícil imaginar que o filme com atores americanos pudesse chegar a isso. Cheio de problemas, o filme ainda pode causar boas risadas, mas estas não acontecem por acaso, são fruto da péssima qualidade do filme, que às vezes ainda soa ridículo. No fim, o pior não é assistir ao live-action americano com cara de paródia de Death Note, é pior ainda pensar que existe a possibilidade de uma continuação.

Avaliação

(Ruim)

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Comentários

Editor-chefe e criador da Matinê Cine&TV. Fã de Harry Potter, O Senhor dos Anéis, Planeta dos Macacos, Star Trek, Star Wars, Marvel, DC Comics. Na TV The Walking Dead, Shameless, Jessica Jones, The Handmaid’s Tale, entre outras, são algumas das suas favoritas.

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