Crítica | Entre Irmãs

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Filme traz história sensível e dura, em abordagem que valoriza o conjunto da obra
Imagem: Divulgação/Sony Pictures

O cinema brasileiro sempre tem as suas surpresas, e Entre Irmãs é uma das melhores. O novo longa de Breno Silveira (Gonzaga: De Pai Pra Filho, 2 Filhos de Francisco) parecia ser apenas a história de duas irmãs que se separam no começo e se reencontram no final, o que é, mas a surpresa do longa está no que acontece no meio dessas extremidades, e principalmente no destino final de Emília e Luzia.

Breno divide o filme em duas narrativas quando suas protagonistas se separam, embarcando em uma jornada épica/romântica, marcante e emocionante pelo cangaço. Assim, o diretor traz ao filme uma abordagem inesperada que conversa com o momento atual do Brasil, por trazer um reflexo de parte da história do país que dita muito do que o povo brasileiro é nos dias atuais. Antes disso, Entre Irmãs ainda é um filme sobre a vida e como ela pode ser difícil, principalmente para as mulheres, além de falar sobre amor em sua mais pura essência.

A abordagem dos temas e da história apresenta um estilo imponente que lembra, inclusive, o clássico E o Vento Levou (1939) – sendo difícil dizer se há um elogio melhor do que este -,  enquanto se constrói como uma peça singular dentro do cinema brasileiro. Aliás, só o tempo pode dizer até onde uma obra cinematográfica realmente pode chegar, e entre os mais aclamados lançamentos dos últimos anos, é possível reconhecer o potencial futuro que Entre Irmãs apresenta.

Marjorie Estiano e Nanda Costa (ambas de enorme talento) dividem as atenções como Emília e Luzia, respectivamente, sendo impossível e injusto destacar uma como melhor (quando as duas foram excelentes). A dupla de protagonistas entrega atuações memoráveis dentro da jornada de cada personagem. Emília é a menina criada no interior com o sonho de morar na capital e conhecer o seu “príncipe encantado”, tendo assim a esperança de uma vida próspera e feliz; Luzia, por outro lado, caiu de uma árvore na infância e prejudicou o movimento do braço esquerdo, tendo uma vida difícil ela não se permitia sonhar como a irmã.

Imagem: Divulgação/Sony Pictures

A partir daí tudo muda com a separação das duas, uma aparentemente entrou em um pesadelo quando separada da família, a outra iniciava o seu conto de fadas. No entanto, o próprio filme deixa claro que mulher não nasceu pra ter vida fácil, e é aí que começam as dificuldades na vida das irmãs. O longa, além de mostrar os respectivos problemas, começa a tocar em diversos assuntos pertinentes na atualidade através dos seus outros personagens, e tudo isso é iniciado de forma natural, dando tempo ao tempo – pois desenvolvimento é o que não falta no longa. Todos esses assuntos são absorvidos de forma dura durante a projeção, um claro reflexo de como as personagens precisam lidar com as adversidades da vida. Os temas são abordados de forma realista e refletem muito da época em que a história é situada, quando a energia elétrica há pouco tempo tinha chegado nas capitais nacionais na década de 1930.

Entre Irmãs, além de ser primorosamente dirigido por Breno Silveira, é totalmente dependente do seu elenco, não apenas das duas protagonistas, mas de todos os coadjuvantes que levam com maestria a longa história do filme (Letícia Colin, Rômulo Estrela e Júlio Machado acompanham as atuações excelentes das protagonistas). Apesar de ter um conjunto, por completo, excelente, o filme é construído de momentos totalmente singulares, cenas marcantes tanto pelo impacto que causam como também pela beleza que apresentam. Há passagens de diálogos que são marcantes dentro do próprio filme, sendo replicadas futuramente pelos próprios personagens. Tudo isso é fruto de um desenvolvimento sem pressa e que valoriza os seus acontecimentos.

Durante a projeção existem inúmeros destaques, a natureza bela e ameaçadora, a sensibilidade do diretor na captura de momentos ímpares – sendo necessária a menção de uma cena protagonizada por Marjorie Estiano e Letícia Colin, uma das mais lindas e sensuais deste ano -, entre outras que só assistindo ao longa para entender. Assim, o roteiro (de Patrícia Andrade) consegue acertar no seu direcionamento, e mesmo usando a sensualidade em diversos momentos, o filme não é vulgar e trata com naturalidade as escolhas e liberdades dos seus personagens em um Brasil da década de 1930, que nem sabia o que era homossexualidade e ainda tratava isso como doença em sanatórios.

Os diálogos levantados por Entre Irmãs carregam muito mais do que aparentam, ao mesmo tempo que chocam em determinados momentos eles ainda conseguem emocionar e tocar o público que embarca nessa épica jornada. São quase três horas que passam como se um velho amigo estivesse contando um bela história, que não cansa em nenhum momento. Ao contrário disso, A Costureira e o Cangaceiro (de Frances de Pontes Peebles) recebe uma adaptação belíssima para o cinema, uma obra marcante da literatura brasileira ganhando vida em um forte candidato a melhor filme nacional de 2017 – com uma concorrência de respeito e qualidade.

Imagem: Divulgação/Sony Pictures

Das terras do interior de Pernambuco à capital do estado, Entre Irmãs encanta pela bela fotografia que valoriza a região sem o exagero de torná-la uma fantasia. O filme, que lembra as vezes lembra uma prosa, de tão poética que sua narrativa consegue ser, traz a experiência do cinema como arte visual em uma história repleta de emoção. É preciso ressaltar a trilha sonora impecável que acompanha o filme com perfeição, sendo um reforço eficiente para o que acontece e sem deixar que o drama se torne redundante. Entre Irmãs não só é brilhantemente dirigido, muito bem escrito e acompanhado de um ótimo elenco, é também uma obra cinematográfica completa, onde o todo é, na verdade, o grande destaque.

É possível, sim, pontuar seus momentos mais marcantes, emocionantes e até mesmo icônicos, mas nada no filme é maior ou mais chamativo do que deveria ser. Ao contrário disso, tudo é harmonioso a ponto de sentar na poltrona e contemplar a experiência que Entre Irmãs pode proporcionar. Aqui está o que deveria ser o representante brasileiro na busca por uma nomeação ao Oscar 2018 – sem menosprezar o que foi escolhido.

Avaliação

(Excelente)

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Comentários

Editor-chefe e criador da Matinê Cine&TV. Fã de Harry Potter, O Senhor dos Anéis, Planeta dos Macacos, Star Trek, Star Wars, Marvel, DC Comics. Na TV The Walking Dead, Shameless, Jessica Jones, The Handmaid's Tale, entre outras, são algumas das suas favoritas.