Crítica | Alias Grace – 1ª Temporada

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Nada se destaca mais do que ótimo conjunto da obra
Sarah Gadon como Grace Marks em Alias Grace da Netflix
Divulgação/Netflix

Mais uma obra de Margaret Atwood ganha vida na TV, contando com a distribuição global da Netflix (exceto no Canadá, onde foi exibida pela CBC). Alias Grace, como se não bastasse, ainda é baseada em fatos reais, na vida da protagonista vivida por Sarah Gadon, Grace Marks.

Inicialmente, Alias Grace soa fantasiosa, com doses pequenas de um ar debochado como um aviso para o público, que está prestes a embarcar em uma história envolvente. Apesar da sua narrativa se desenvolver na base de flashbacks e parecer bastante monótona, Alias Grace apresenta, aos poucos, elementos que quebram essa expectativa da narrativa deixando a história mais rica em cada um dos seis episódios. O subtexto representativo e feminista estão no cerne na adaptação, algo habitual nas obras de Margaret Atwood.

A história acompanha os relatos de Grace Marks, na época em que tinha 15-16 anos quando fora acusada de assassinar o patrão e a governanta da casa onde trabalhava, agindo em conchavo com outro funcionário da fazenda. Assim, os episódios investigam os relatos e lembranças da protagonista. Fugindo do óbvio, Alias Grace não procura vitimizar, inocentar ou auto culpar Grace Marks. O roteiro faz dos relatos de Grace uma história duvidosa em uma via de mão dupla em que é possível acreditar, ou não, no que diz a protagonista.

Este viés é interessante, e lembra muito do que American Crime Story fez quando contou o caso do ex-jogador de futebol americano O.J. Simpson na sua primeira temporada, no ano passado. Com essa fórmula, a série tem a capacidade de prender o espectador sem deixar que o mesmo consiga descobrir se Grace é culpada ou não – assim é eficiente em incapacitar o seu público de dar o seu próprio veredito final. Assim o roteiro acaba sendo muito mais inteligente do que parece. Alias Grace é, sim, muito mais do que aparentava.

Margaret Atwood em participação especial em Alias Grace (Netflix)
Divulgação/Netflix

Os méritos, antes chegarem ao elenco, estão na equipe responsável pela produção. Todos os seis episódios tem a direção assinada por Mary Harron, a diretora de Psicopata Americano. O roteiro é escrito por Sarah Polley, com colaboração da autora Margaret Atwood, que ainda faz uma pequena participação em um dos episódios. Atwood, inclusive, certamente influenciou em questões visuais, lembrando vagamente a aclamada The Handmaid’s Tale – principalmente quando deixa o foco apenas na face dos personagens, chamando a atenção, sempre, para os olhos. Aliás, Alias Grace, em quesitos visuais, é uma das séries mais charmosas de 2017, favorecida não só pela fotografia, mas também por um belíssimo figurino e design de produção, construindo um Canadá em meados de 1800 – e claro, toda essa qualidade converge para a construção da história que está sendo contada.

A adaptação, obviamente, abre espaço para o feminismo de Atwood, o que deixa a história ainda mais rica ao retratar a realidade de uma época em que a mulher nascia submissa. Aqui, não existia exatamente um regime opressor, o pensamento pequeno do homem da época (e que perdura até os dias atuais) era o suficiente para ser considerado opressor. Até mesmo o patrão mais “liberal”, também tinha a sua própria forma de escravizar as mulheres.

Alias Grace é uma série inteligente, não está entre as melhores estreias do ano, mas é sem dúvida uma das mais revigorantes em um contexto geral dentro das séries de TV. É o tipo de produção diferenciada que mesmo não sendo incrível ou maravilhosa, é extremamente prazerosa de ser degustada – além de ter apenas seis episódios que se resolvem com facilidade. Apesar disso, a história é enganosa, no bom sentido, fazendo questões surgirem na mente de quem está assistindo, e as respostas são mais do que satisfatórias. No entanto, no fim das contas, Alias Grace é uma série travessa, assim como sua protagonista, por trazer uma dubiedade corajosa e inquietante, que pode mais desagradar do que agradar – depende apenas do interesse do espectador.

Sarah Gadon como Grace Marks em Alias Grace da Netflix
Divulgação/Netflix

A resolução final, seja ela espírita ou científica, é a cereja do bolo em Alias Grace, finalizando a história da minissérie. É um final contraditório para quem espera uma conclusão, mas como se trata da vida que segue, cabe a cada um tirar a sua interpretação. Seja ela crível ou não, Alias Grace é, talvez, um pouco postiça, com sua cenografia levemente alá Desventuras em Série, mas não é menos real do que qualquer outro drama, afinal a história, mesmo que adaptada de um livro, realmente aconteceu.

Atrevida e corajosa, Alias Grace é muito mais encantadora do que brutal, mas não menos alucinante do que o necessário – o seu final que o diga. Mary Harron dirige os episódios no mesmo ritmo e tom, mostrando o quão afiado e inteligente é o roteiro do seriado. Sarah Gadon consegue captar a essência da personagem e respeita a dubiedade do roteiro. Grace é doce e encantadora, sua personalidade combina com o charme da série, ao mesmo tempo em que deixa uma pulga atrás da orelha do espectador. Alias Grace ainda traz outras ótimas participações, mas nada se destaca mais do que ótimo conjunto da obra, que resume muito bem a coesão dos seis episódios que desenvolvem essa história.

Avaliação

Direção
Roteiro
Elenco
Técnica
Média
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Comentários

Editor-chefe e criador da Matinê Cine&TV. Fã de Harry Potter, O Senhor dos Anéis, Planeta dos Macacos, Star Trek, Star Wars, Marvel, DC Comics. Na TV The Walking Dead, Shameless, Jessica Jones, The Handmaid’s Tale, entre outras, são algumas das suas favoritas.

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