Crítica | Invisível

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Mais uma vez o cinema argentino mostra a sua incrível capacidade trabalhar com o complicado
Mora Arnillas como Ely no filme Invisível
Imagem: Divulgação/ Vitrine Filmes

Há assuntos e temas difíceis de trazer para o cinema, discussões calorosas que esquentam não só o debate, mas também a essência humana de cada indivíduo. Um desses temas, talvez o mais complicado, é o aborto, permitido em alguns países, proibido por muitos, e o tema central do longa argentino (em co-produção com outros países) Invisível.

O título resume de forma sutil e delicada o que pode definir o filme, que traz uma abordagem bastante sensorial. No último ano do ensino média, Ely (Mora Arnillas) descobre que está grávida do colega de trabalho, e sua primeira reação é decidir que não terá a criança. No entanto, Invisível é muito mais do que essa decisão precipitada da jovem que transita da adolescência para a vida adulta. O longa acompanha a vida da jovem entre a semana em que ela descobre a gravidez até o momento crucial da sua vida.

Invisível não é uma crítica social, não aborda de fato a consequência que a gravidez na adolescência traz para uma jovem do subúrbio com problemas em casa – ou seja, não se trata de uma panfletagem escolar para conscientizar ou intimidar qualquer adolescente sobre o início da vida sexual. Ao invés de trazer para o espectador uma opinião sobre o aborto, o filme foca em expor uma situação ligada ao assunto. Pablo Giorgelli (diretor) mostra a vida de Ely de um jeito íntimo e próximo com a câmera acompanhando a personagem, sua expressão, ou a falta dela, focando na forma como esse turbilhão de sentimentos afeta a protagonista.

Mora Arnillas e Diego Cremonesi no filme Invisível
Imagem: Divulgação/Vitrine Filmes

Ely passa o filme como se estivesse sem rumo, em um estado reacional quase catatônico, sua vida é impactada não só pela notícia como também pela decisão. O conflito interno da protagonista não é exposto de forma verbal, estando presente de um jeito que só os olhos do público são capazes de identificar. Não se trata de uma situação de empatia, mas sim de compreensão, é preciso entender a mente conflitante da jovem. Aos poucos a narrativa vai incrementando o peso que fez Ely tomar, de cara, essa decisão (não como justificativas diretas, mas, talvez, como gatilhos influenciadores). De um lado há uma mãe traumatizada e doente, que perdeu o emprego e não sai mais de casa; de outro existe a melhor amiga, que não contesta a decisão, apenas ajuda de forma quase incentivadora o aborto; e no meio, por fim, o pai, um homem casado que acha a decisão do aborto correta, afinal ele tem uma vida e não quer estragá-la.

Por tanto, Invisível traz uma situação que não pertence apenas a Ely, mas sim a milhares de meninas e mulheres que vivem o mesmo conflito semanalmente no mundo. A abordagem do diretor não só reforça isso, como também aproxima a história do mundo real, fazendo de Invisível muito mais do que ficção. Mora Arenillas, que dá vida a protagonista, corresponde com uma atuação angustiante, espera-se, em determinados momentos, uma reação mais radical da personagem, ao mesmo tempo em que é evidente a incapacidade dela se expressar. Nos últimos minutos de filme, a atriz faz o coração bater mais forte, a dúvida sobre o que fazer ou não aumenta a angústia até que tudo se acabe – a decisão final merece o mistério, pois a revelação e a forma como é conduzida são como a cereja do bolo em Invisível.

Invisível expõe o aborto em uma situação mundana e real, mesmo que na ficção, a abordagem do diretor é consciente e acerta em não ser uma panfletagem de um posicionamento contra ou a favor do aborto. A história segue lenta, acompanhando a rotina convencional de Ely, que vai da escola para o trabalho, e deste para casa. É uma jornada silenciosa que conta com poucos diálogos, e sua história está, na verdade, naquilo que o espectador for capaz de captar e entender. Invisível não é um filme subjetivo, sua história sensorial não se complica e mostra com sensatez um assunto tão difícil de ser exposto como é o aborto. Mais uma vez o cinema argentino mostra a sua incrível capacidade trabalhar com o complicado, desta vez com as mãos hábeis e a mente responsável de Pablo Giorgelli.

Avaliação

(Ótimo)

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Comentários

Editor-chefe e criador da Matinê Cine&TV. Fã de Harry Potter, O Senhor dos Anéis, Planeta dos Macacos, Star Trek, Star Wars, Marvel, DC Comics. Na TV The Walking Dead, Shameless, Jessica Jones, The Handmaid’s Tale, entre outras, são algumas das suas favoritas.

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