Crítica | Justiceiro – 1ª temporada

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Marvel e Netflix aposta em jornada brutal e emocional para Justiceiro, e, em suma, acertam
Jon Bernthal como Frank Castle/Justiceiro na série Justiceiro da Netflix
Divulgação/Netflix

Existem falhas em Justiceiro, não tão grandes quanto as de Punho de Ferro ou até mesmo as de Os Defensores. Suas consequências não prejudicam o produto final, mas suas existências incomodam no meio do caminho. Com Justiceiro havia uma promessa de violência brutal e perturbadora, combinada a um drama emocional bastante pesado, e tudo isso foi devidamente cumprido. Frank Castle ganha vida em sua série solo e o conjunto estabelecido pelos 13 episódios da primeira temporada consegue chegar próximo a qualidade absurda do ano dois de Demolidor – que até então, dentro do Universo Marvel Urbano da Netflix, continua insuperável.

O formato de 13 episódios é um problema, mais uma vez. A história como um todo está novamente inchada, mas visivelmente menos do que habitual, pois dentro dos exagerados há o que é desnecessário nas mesmas proporções em que outros pequenos enredos justificam a sua presença. Justiceiro sofre de um problema de foco no miolo da temporada, além de iniciar erroneamente a motivação pessoal de alguns dos novos personagens – assim como peca na continuidade dos fatos até o encerramento da temporada.

Justiceiro não se trata de uma série de origem, na verdade não havia necessidade disso. Punisher é muito mais uma consequência de tudo aquilo que fez Frank Castle se tornar o Justiceiro. Mesmo com falhas, a série constrói os seus próprios méritos, levantando discussões que geralmente uma série de super-heróis não costuma abordar. Aliás, Justiceiro não é uma série de super-herói, é algo muito mais real do que isso, muito mais pé no chão. É verdade também que existem momentos mais cartunescos, provenientes dos quadrinhos, mas Justiceiro está situado no mundo real – e deixa isso bem claro -, onde existem discussões sobre o porte de armas, um sistema controlador corrupto e que capacita homens a fazerem o seu trabalho sujo sem ao menos lhe dar a chance de terem uma vida normal novamente – mas assim como uma moeda, toda essa história e discussão tem mais de um lado para ser analisado.

Dentro destes diálogos, Justiceiro parece se inspirar na jornada traumática de Chris Kyle (Bradley Cooper) no filme Sniper Americano (2014), batendo na tecla de que “o soldado sai da guerra, mas a guerra não sai do soldado“. Justiceiro expõe situações em que a mente humana pode não suportar aquele ambiente em que está inserida, fazendo que o gatilho de uma violência brutal, e não gratuita, seja disparado quase que espontaneamente. Não há luta, tiroteio e assassinato gratuito em Justiceiro, isso não quer dizer que os atos, no mundo real, sejam justificáveis, mas também não propõe que tais cenas sejam feitas para fins de entretenimento do espectador. A brutalidade de alguns desses momentos é tão grande que é a vontade de fechar os olhos para aquilo que acontece na tela é bastante sedutora. Há verdade naquilo que se vê, a câmera faz questão, por exemplo, de mostrar Frank Castle quebrando um pescoço – mas isso é algo, até, mínimo.

Ben Barnes como Billy Russo em Justiceiro na Netflix
Divulgação/Netflix

Por traz de todo o enredo há profundidade e camadas que podem e merecem serem estudadas. Jon Bernthal não só encarna brilhantemente o personagem mais uma vez, como consegue transparecer em tela toda a guerra interna do personagem-título. Toda a exigência dramática imposta pelo roteiro é entregue não só pelo ator protagonista, mas também pelos companheiros de cena. Dentro das séries da Marvel na Netflix, Justiceiro certamente, ao lado de Demolidor, é a que melhor desenvolve os seus personagens – mas isso não quer dizer que todos sejam bons ou fortes. Com isso, dessa vez não há espaço para um antagonista canastrão, mesmo que suas motivações já sejam de conhecimento público, o desenvolvimento e a transformação do personagem ao longo dos 13 episódios é o que mais torna os méritos de Justiceiro admiráveis por seguirem o que é estabelecido na série. Vale ressaltar que o vilão, Billy Russo (Ben Barnes), tem um dos pontos altos da temporada quando acaba sendo “transformado” no Retalho – famoso vilão do Justiceiro nos quadrinhos.

É claro que 13 episódios continua sendo um exagero para as séries da Marvel na Netflix, mas Justiceiro, pelo menos, mesmo que deixando a sua história perder o rumo quando põe seu protagonista jogado na bandeira do escanteio, ainda consegue fazer o espectador se interessar pela história que está sendo contada. Narrativamente, mesmo que se desvirtuando do foco principal, Justiceiro consegue andar para frente e movimentar a história sem deixá-la chata ou cansativa – o que já uma vitória. A investigação não é monótona em nenhum momento, mas sempre há um núcleo que é mais interessante e forte que o outro.

Para Justiceiro, caminhar em frente também é um risco e é onde a série tropeça nos próprios pés. Há incoerências e falhas de continuidade na narrativa (em que uma personagem quer prender Castle por ter matado o amigo, e depois não mostra que não que Frank o tinha assassinado). Além disso, há erros de continuidade de cena bastante grotescos, que só aparecem por extremo descuido da produção. As falhas não diminuem o impactado causado pela história, não eximem os méritos construídos pelo programa, e não tiram o devido reconhecimento das discussões que a série levanta.

Frank Castle (Jon Bernthal) e Karen Page (Deborah Ann Woll) em Justiceiro da Netflix
Divulgação/Netflix

Justiceiro desperdiça algumas pequenas oportunidades, aproveita outras, acerta no que deveria e erra onde não precisava. A primeira temporada fez o suficiente para não decepcionar aqueles com as expectativas mais calibradas, afinal Justiceiro nunca prometeu ser uma série além do que realmente acabou sendo. Jon Bernthal rouba a cena quando consegue o protagonismo da série, entrega tudo o que é necessário e mais um pouco quando lhe é exigido. É uma pena, no entanto, que o próprio roteiro não consiga aproveitar o melhor do personagem em determinados momentos, assim como em outros mostra que compreende completamente quem é o Frank Castle das páginas dos quadrinhos quando resolve adaptá-lo para as telas da Netflix.

No fim das contas, é gratificante ver Justiceiro, a série consegue justificar a sua existência, faz com que a jornada de Frank Castle não seja em vão e sim algo que precisava ser encerrado – mesmo que no final não haja de fato um encerramento. Dessa vez, a ligação desta com as outras séries da Marvel na Netflix se estabelece por já ter tido o protagonista em Demolidor e pela ótima participação de Karen Page (Deborah Ann Woll), que aparece só quando necessário. O saldo de Justiceiro acaba sendo bastante positivo.

Avaliação

Direção
Roteiro
Elenco
Técnica
Média
 

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Editor-chefe e criador da Matinê Cine&TV. Fã de Harry Potter, O Senhor dos Anéis, Planeta dos Macacos, Star Trek, Star Wars, Marvel, DC Comics. Na TV The Walking Dead, Shameless, Jessica Jones, The Handmaid’s Tale, entre outras, são algumas das suas favoritas.

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