Ksenia Solo como Lucy no filme Em Busca de Fellini

Nancy Cartwright, ao lado de Peter Kjenaas, escreve o roteiro de Em Busca de Fellini se baseando na sua própria jornada. Isso já demonstra a abordagem pessoal que o filme iria trazer. No entanto, na prática isso não se restringe apenas a jornada pessoal para Lucy – protagonista inspirada em Giullietta Masina do filme A Estrada da Vida -, deixando claro que o filme foi feito para a própria Nancy Cartwright e aos fãs da filmografia de Federico Fellini.

Para quem conhece os simbolismos dos filmes de Fellini, o longa deve ser sentido como um mar de referências colocadas como grandes homenagem a um dos diretores mais importantes do cinema italiano. Por outro lado, Em Busca de Fellini pode ser uma jornada bonita, romântica e um pouco vazia para quem não conhece a filmografia do diretor. As provações pelas quais Lucy precisa passar para o seu próprio crescimento estão ali, algumas conversam mais com os dilemas do próprio filme, outras se direcionam a tal homenagem que o longa presta a Fellini.

A direção e a fotografia trabalham bem o tempo todo, dando ao público a oportunidade de ver momentos plasticamente abundantes, de uma beleza imensurável. O tom amarelado da fotografia em contra-ponto do sol valorizam a paisagem européia e a beleza adocicada de Ksenia Solo que dá vida a ingênua protagonista – além de representarem a esperança da mesma em ter um encontro com o diretor. A jornada de Lucy, como um todo, reflete completamente o que se vê em A Estrada da Vida (1954). Há mudanças entre os gatilhos de um filme para outro, mas narrativamente, a viajem que Lucy faz por algumas cidades da Itália fazem, sim, uma grande alusão a tudo que Gelsomina passa após ser vendida pela própria a mãe a um lutador exibicionista – que, inclusive, ganha um retrato lúdico que comprova a homenagem que é Em Busca de Fellini.

O elenco entrega o que o filme pede, mas com a abordagem pessoal que a história ganha, tudo gira em torno da protagonista e o quão protegida ela é. Lucy, até os 20 anos de idade, pouco havia saído de casa e nunca teve um emprego. O longa retrata esse choque de realidade quando a protagonista precisa sair dessa zona de conforto para enfrentar o mundo real, que ela pouco conhecia. A mãe (Maria Bello) e a tia (Mary Lynn Rajskub) desempenham um papel importante quando o filme se dedica em mostrar quem é a sua protagonista, mas as personagens acabam sendo vítimas das obviedades do roteiro, que tirando as homenagens que fez a Fellini, não sabe o que fazer com o restante do filme.

Em Busca de Fellini exalta um sentimentalismo sincero e espontâneo, mas falta um direcionamento mais claro para suas intenções que mesclam a narrativa entre os aprendizados da protagonistas e os dramas pessoais que ela nem sabe que existem. Como homenagem a Federico Fellini o longa faz suas referências, exibe suas inspirações e presta as suas homenagens, funcionando muito bem. Já como um filme que precisa funcionar sozinho, o mesmo enfraquece e demonstra fragilidade. Se fosse mais encorpado, Em Busca de Fellini seria um filme mais amplo,  permitindo-se ser mais do que uma homenagem a um grande diretor, o que não é ruim, mas só isso também não é o bastante.

Avaliação

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Criador da Matinê, está no 4º semestre do curso de jornalismo no Centro Universitário Ritter dos Reis - UniRitter. Aqui escrevo sobre filmes e séries a partir da minha perspectiva de mundo, sem medo de mostrar a todos o meu entendimento pessoal daquilo que assisto. O debate de pontos de vistas diferentes é livre, e sempre bem-vindo.