Com referências a Star Trek, boas reflexões e tom leve, U.S.S. Callister abre bem a nova temporada de Black Mirror

Compartilhe:Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on LinkedInShare on Google+Email this to someone
Nanette Cole (Cristin Milioti) na 4ª temporada de Black Mirror
Divulgação/Netflix

A promessa principal do criador de Black Mirror, Charlie Brooker, é de que a quarta temporada será menos sombria do que as anteriores. U.S.S. Callister, o episódio taxado como paródia de Star Trek, confirma a diminuição de densidade no estilo mindfuck da série sem deixar que trazer reflexões e subversões interessantes sobre o tema e os personagens do episódio. Sendo assim, não é só o clima de aventura, e até de diversão, que pegam o espectador de surpresa durante o primeiro episódio.

Em U.S.S. Callister acompanhamos o fã de uma antiga série de ficção científica, a Frota Espacial, uma versão adaptada de Star Trek para o episódio. Robert Daly (Jesse Plemons), junto do sócio Walton (Jimmi Simpson), criaram uma empresa de games realizadora do imersivo Infinity, um jogo espacial que simula combates intergaláticos ao estilo de Star Trek. A trama mostra que, assim como dito pelos personagens, Walton é o rostinho bonito da empresa, enquanto Robert é o cérebro e fica a sombra do sócio, que leva grande parte do crédito do sucesso do jogo.

Inicialmente, U.S.S. Callister faz o público se solidarizar com Robert Daly, um nerd apagado e menosprezado, apresentado-o (quase) como coitadinho. No entanto, a primeira surpresa do episódio é a subversão dessa impressão, que aos poucos começa a mostrar quem o personagem realmente é – um homem rancoroso, obsessivo e que usa o mundo virtual para fazer aquilo que sua personalidade e medo não o permitem fazer no mundo real, fazendo-o uma espécie de tirano virtual. Tudo isso ainda é confirmado, quando o episódio mostra que a cena inicial não era um sonho, ou alucinação do personagem, mas sim uma versão (do jogo filme Infinity) feita pelo desenvolvedor e inspirada pela série, Frota Espacial, em que Robert usava o DNA dos funcionários da empresa para reproduzi-los como cópias digitais no jogo. Assim, Daly transformava-os em seus submissos, pois dentro daquele cenário ele sentia o poder que não conseguia ter no mundo real.

Enquanto tudo isso acontecia, USS Callister ainda planejava uma nova virada bastante interessante, ao fazer da nova integrante da equipe da empresa a real protagonista do episódio. Nanette Cole (Cristin Milioti) chega despretensiosa, assim como o episódio, e aos poucos vai tomando a frente através do seu eu digital inserido no Infinity de Robert Daly. A personagem, então, inicia algo um tanto inesperado: enquanto Robert não está no seu jogo particular, as cópias digitais dos personagens vivem conscientes no jogo, sabendo tudo sobre a sua vida no mundo real até o dia em que o seu DNA fora recolhido por Daly. A piração, característica de Black Mirror, mostra um lado inesperado do episódio, fazendo com que os personagens digitais tomem a frente da narrativa ao não se conformarem com as tiranias do Capitão Robert Daly e partirem em busca da própria liberdade.

Elenco do episódio USS Callister - 4ª temporada de Black Mirror
Divulgação/Netflix

U.S.S. Callister equilibra as suas reflexões sobre a personalidade dos seus protagonistas, mostrando um viés comparativo sobre a “expectativa vs realidade“, fazendo também um paralelo com o mundo real (este em que vivemos) ao mostrar o quão poderosas as pessoas se acham quando estão no mundo virtual. No entanto, todo esse peso filosófico sobre o comportamento social contemporâneo é mesclado com o clima de aventura e diversão carregado pelo episódio, que referencia de uma forma bastante particular a fase clássica de Star Trek na TV, usando como modelo o formato narrativo das explorações espaciais do Capitão James T. Kirk (William Shatner) e do vulkano Spock (Leonard Nimoy) – desde o enfrentamento com uma nave inimiga (com um dos personagens controlando os níveis de proteção do escudo da nave,enquanto outro fica sentado no centro da cabine no posto de Capitão) até mesmo quando a U.S.S. Callister sofre um ataque e todos voam da suas cadeiras.

Dentro disso, U.S.S. Callister ainda faz uma breve sátira ao evocar com força a cafonice da década de 1960, quando Star Trek foi ao ar pela primeira vez – e sem deixar de mencionar a versão peculiar e ainda mais cafona de um dos grandes vilões de Star Trek, Kahn, vivido por Ricardo Montalbán na série clássica e recentemente interpretado por Benedict Cumberbatch em Além da Escuridão: Star Trek de 2013.

Com toda essa inspiração, sem deixar de ser também uma homenagem a um dos clássicos mais cultuados da cultura pop, U.S.S. Callister abre a quarta temporada de Black Mirror de um jeito inesperado, confirmando a menor densidade prometida pelo criador da série. Mesmo com isso se concretizando no tom do episódio, o roteiro ainda continua rico em reflexões, trazendo debates interessantes sobre o comportamento humano no mundo virtual. É um debate comum, é verdade, mas este chega com uma roupagem bastante original e criativa, trazendo assim novos ares para a tradicional originalidade e peculiaridade de Black Mirror.

Compartilhe:Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on LinkedInShare on Google+Email this to someone
, , ,

Comentários

Editor-chefe e criador da Matinê Cine&TV. Fã de Harry Potter, O Senhor dos Anéis, Planeta dos Macacos, Star Trek, Star Wars, Marvel, DC Comics. Na TV The Walking Dead, Shameless, Jessica Jones, The Handmaid’s Tale, entre outras, são algumas das suas favoritas.

Você Também Pode Curtir