Crítica | O Destino de Uma Nação

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Lily James e Gary Oldman em O Destino de Uma Nação (Darkest Hour)

Entre todos os filmes cotados para uma indicação no Oscar 2018, O Destino de Uma Nação talvez seja o menos palatável entre eles. A história apresenta mais um retrato de Winston Churchill – visto recentemente no filme Churchill (2017) e na série The Crown -, mas Joe Wright (diretor) traz um olhar bastante específico da carreira do ex-Primeiro-Ministro britânico. O Destino de Uma Nação é o tipo de filme que faz com que o seu protagonista seja ainda maior que a história que está sendo contada.

Em julho de 2017, Christopher Nolan chegou aos cinemas com o aclamado Dunkirk, mostrando os desdobramentos da Operação Dínamo, que resgatou mais de 200 mil soldados britânicos da praia de Dunquerque, enquanto eles estavam cercados pelo exército alemão de Adolf Hitler. Enquanto o longa de Christopher Nolan mostra como os soldados foram resgatados, O Destino de Uma Nação apresenta o lado político da criação da Operação Dínamo e o que Winston Churchill precisou enfrentar para que a ação de resgaste fosse concretizada.

Nos primeiros minutos de projeção, Joe Wright esconde o protagonista para ambientar o espectador na fascinante reimaginação da Londres de 1940, mostrando a exuberante fotografia de Bruno Delbonnel (O Fabuloso Destino de Amélie Poulain) e preocupando-se em fazer um breve retrato da situação política delicada do país. Assim, o diretor cria um ambiente de expectativa para a atração principal. E quando Gary Oldman entra em cena é possível entender que o filme foi feito para ele e o seu personagem.

A recente popularização da série The Crown da Netflix já entrega uma base sólida de quem é e o que Winston Churchill representa para o povo britânico, e muito do que foi visto na série acaba sendo replicado no filme, afinal há elementos que fazem parte deste “personagem” – suas manias, por exemplo. Com isso a orquestra regida por Joe Wright prioriza única e exclusivamente o protagonista e a sua importância determinante para o ponte pé que começou a construir a derrota da Alemanha nazista e consequentemente dando fim a Segunda Guerra Mundial anos depois.

Gary Oldman em O Destino de Uma Nação (Darkest Hour)Dentro desta mesma intenção, de reger um filme em prol de um personagem e de uma atuação, O Destino de Uma Nação peca na construção do próprio ambiente da guerra. O filme faz o espectador sentir a pressão que o cargo de Primeiro-Ministro recebe, deixa explicitas as conspirações políticas que envolvem a trama, mas pouco transmite o que a “Nação” está sentido. Sendo assim, o filme que incita “O Destino de Uma Nação” acaba mostrando “A Decisão de Um Homem“. Outro problema de focalizar todos os seus esforços no protagonista, é deixar de lado histórias que poderiam tornar o filme mais humano, como o peso que a personagem de Lily James apresenta – sendo meramente desenvolvido em uma única cena. Entretanto, o longa constrói o básico, de forma eficiente, quando mostra que Winston dedica-se completamente a vida pública, sendo ausente para a mulher e os filhos – já conformados com a situação.

Gary Oldman é um gigante em cena, mesmo coberto por tanta maquiagem o ator consegue dar veracidade ao personagem, até quando o roteiro não é capaz de humanizá-lo. Aliás, a intenção do filme não é fazer o público se identificar ou demonstrar empatia pelo protagonista, mas sim fazer o espectador admirar o Primeiro-Ministro britânico – o único homem capaz de confrontar ou causar algum tipo de ameaça a Adolf Hitler -. O Destino de Uma Nação não é um filme grandioso, e sua falta de ritmo confirma isso, mas a projeção traz momentos de êxtase, e Oldman têm, no mínimo, cinco cenas dignas de indicação ao Oscar, e dentro delas três podem fazê-lo levar a estatueta pela primeira vez.

Joe Wright arquiteta esses momentos de ápice do personagem transformando a figura de Winston Churchill em um homem admirável, imponente e as vezes muito humano (frágil, receoso), sendo aqui onde Gary Oldman melhor trabalha as diferentes facetas emocionais do personagem, pois é nelas também que o roteiro abre mão das frases de impacto para trazer verdade e a já mencionada humanidade ao protagonista. Assim, há cenas em que Gary Oldman é capaz de arrepiar o espectador, que é agraciado com uma atuação brilhante do ator – e em parte, traz alguns dos melhores momentos da sua carreira.

Kristin Scott Thomas e Gary Oldman em O Destino de Uma Nação (Darkest Hour)O Destino de Uma Nação acerta e erra ao mesmo tempo quando se constrói como uma grande orquestra regida para a atuação de Gary Oldman, é um filme denso, de texto por vezes pesado, pouco político é verdade, mas cheio de frases e citações que comprovam um trabalho de pesquisa histórica minuciosa da produção. A linha cronológica traçada pela narrativa consegue passar um senso de imediatismo para a trama do filme, que não traz em sua essência a intenção de partir de um ponto até chegar em outro. Contudo, a jornada de Winston dentro do filme, com obstáculos políticos e pessoais, valorizam ainda mais a atuação de Gary Oldman – outro fator que valoriza ainda mais o ator, são as nuances da iluminação em contraste com outros personagens, é um filme tecnicamente de conceitos bárbaros e suas execuções acabam sendo impecáveis.

Joe Wright faz de O Destino de Uma Nação uma forte jornada sobre a figura de Winston Churchill, e trabalha a ferro para fazer do protagonista um homem poderoso e frágil, com o objetivo final de construir o herói britânico, que um dia já fora vilão.

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Editor-chefe e criador da Matinê Cine&TV. Fã de Harry Potter, O Senhor dos Anéis, Planeta dos Macacos, Star Trek, Star Wars, Marvel, DC Comics. Na TV The Walking Dead, Shameless, Jessica Jones, The Handmaid’s Tale, entre outras, são algumas das suas favoritas.

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