Divulgação/Universal Pictures

Existe uma padrão seguido por boa parte dos filmes coming-of-age (história sobre amadurecimento, basicamente). As história são contadas pelo ponto de vista masculino, onde o protagonista inicia sua jornada no último ano do colegial, querendo beijar a garota por quem são apaixonados e principalmente perder a virgindade antes de entrar para a faculdade. Na maioria dos casos, a abordagem dessas histórias ganha alguns contornos que a tornam muito mais besteirol do que um comingo-of-age propriamente dito. Lady Bird, em parte, segue um pouco deste padrão, mas há algumas novidades encantadoras por aqui.

Greta Gerwig, diretora e roteirista, tem méritos importantes em relação as mudanças que o filme se propõe a fazer na fórmula tradicional do coming-of-age. A cineasta conta a história através do ponto de vista da protagonista, a jovem Christine, ou a Lady Bird. Ao subverter a lógica da narrativa comum, onde, na maioria dos casos, a mulher ou a menina eram vistas apenas como um objeto de desejo sexual ou como o prêmio final do colegial, passam a desempenhar um papel diferente dentro desse contexto de amadurecimento.

Lady Bird traz uma visão essencialmente diferente para o gênero, com mais delicadeza e profundidade do que normalmente se vê por aí. Gerwig ainda dá o toque especial de uma mulher que compreende essa visão na direção, sendo o filme uma obra quase autobiográfica da sua própria vida, além de trazer algo novo para o gênero – a mudança de visão não só ajuda a história a ser mais agradável e palatável, como também torna-a mais deleitosa.

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A Lady Bird (protagonista) é carismática, birrenta, decidida, afrontosa, frágil e forte nas mesmas proporções, mas é principalmente interpretada de um jeito formidável pela talentosa Saoirse Ronan. A atriz é vibrante em cena, o espírito da personagem é contagiante, e a sua história, pela forma como é contada, faz com que o espectador acredite que aquilo é realmente o mundo real. Os diálogos afiados escritos pela diretora ajudam muito o trabalho da atriz, e do elenco no geral. Há cenas que alfinetam o momento político americano, há outras que modificam o olhar sobre o descobrimento sexual – quando a protagonista afirma que o sexo não foi nada demais, por exemplo -, além daquelas que combinam com a simplicidade e maturidade do filme como obra cinematográfica.

Lady Bird acerta no centro do alvo quando se propõe a mostrar que existem dois mundos dentro de um só – um com problemas sérios e verdadeiros (dentro de casa) e outro com dilemas pessoais, talvez mais egocêntrico (no âmbito colegial e na vida pessoal da protagonista). Greta Gerwig conduz muito bem a narrativa. A diretora é ágil e com pouco mais de uma hora e meia de projeção mostra o quão sucinto eficiente esse roteiro consegue ser. A cineasta torna tudo isso um espetáculo envolvente e delicioso, o filme é de fato uma graça.

Lady Bird é arrebatador, traz um trabalho homogêneo e completo entre todos os componentes cênicos do filme. A fotografia granulada reflete, com o auxílio das cores, um tom que valoriza a paisagem local, que combina com a personalidade da protagonista e ainda realça a essência indie do longa – que acaba tornando Lady Bird mais íntimo, além de distância-lo dos outros filmes do gênero.

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Como se não bastasse a orquestra harmoniosa da sua concepção, Lady Bird ainda conta a atuação, também formidável, de Laurie Metcalf, que vive a mãe da protagonista. Greta Gerwig desenvolve a relação de mãe e filha de um jeito bastante delicado, por se preocupar tanto com pequenos detalhes de uma relação tão conturbada como a das duas personagens – principalmente pela influência do contexto criado para tal.

Lady Bird: A Hora de Voar é um coming-of-age bastante padronizado, sua narrativa não traz grandes surpresas (essas ficam por conta do personagem de Lucas Hedges). Os clichês, aqui, não incomodam, e mesmo trazendo o comum para tela do cinema, Lady Bird tem a vantagem de mudar esse padrão com o olhar diferenciado da sua diretora, que tem consigo a maioria dos méritos do filme. Mesmo não surpreendendo, Lady Bird: A Hora de Voar tem muito o que conversar com o seu público e faz com que toda a preparação do voo da passarinha seja mais do que gratificante e emocionante – aliás, é onde a realidade cai nos ombros da protagonista, que só então percebe que está enfrentando a vida adulta.

Avaliação
Avaliação: Muito bom
8.5
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Editor-chefe e criador da Matinê Cine&TV. Fã de Harry Potter, O Senhor dos Anéis, Planeta dos Macacos, Star Trek, Star Wars, Marvel, DC Comics. Na TV The Walking Dead, Shameless, Jessica Jones, The Handmaid's Tale, entre outras, são algumas das suas favoritas.

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