Divulgação/Diamond Films Brasil

Mudbound não é só o filme de temática racial da temporada de premiações. Sua diretora, Dee Rees, traz um retrato importante sobre o racismo, a segregação racial e principalmente sobre a desigualdade social. Apesar disso, muito do que se tem aqui já foi visto em outro lugar, mas não há nada de ruim relembrar de fatos e momentos que infelizmente fazem parte da história da humanidade, sobretudo de um passado recente da história norte-americana.

Mudbound não se trata apenas da amizade entre um homem branco e um homem negro. No filme, essa amizade é um conforto mental para dois “heróis de guerra” que voltam para casa traumatizados. Há um cena bastante emblemática referente a isso, quando Jamie McAllen (Garrett Hedlund) sai da mercearia e ouve o escapamento de um carro fazer um estouro, o que na sua cabeça soa como uma explosão. É aí que nasce essa amizade improvável em um cenário em que os brancos são dominantes e os negros, mesmo livres, viviam praticamente como escravos.

Dee Rees aborda o tema e a história com um tom que não força a barra para o espectador. A narrativa flui naturalmente em um tom épico, mas com toques mais sensoriais e humanos que aproximam o longa do espectador. A trilha sonora e a fotografia são dois componentes importantes para que isso aconteça. A trilha reforça muito do que filme quer provocar no público, a fotografia, por outro lado, valoriza os cenários, alternando em tons amarelados (quando o sol enche os agricultores de esperança para a próxima colheira) e em tons acinzentados (quando a chuva cai nas plantações e enche os agricultores de dúvidas sobre os seus ganhos).

Mudbound: Lágrimas Sobre O Mississippi
Divulgação/Diamond Films Brasil

A diretora, além de tudo isso, ainda explora muito bem todos os ambientes, fazendo com que eles sejam uma parte importante da história. Tudo acaba sendo marcante, a estrada de terra que leva-os até a cidade, o barral que se encontra na frente da casa dos McAllen, a casa humilde dos Jackson, a plantação arada pela inchada, o sol que bate forte durante o dia, entre outros elementos que fazem Rachel Morrison ser a primeira mulher, na história, a ser indicada ao Oscar de Melhor Fotografia.

Mudbound, ainda por cima, é um filme bastante contido. O tom épico de época e a abordagem da diretora – que assina o roteiro da adaptação com Virgil Williams – fazem com a história seja contada como se fosse de fato literal, algo que o filme certamente retirou a obra de Hillary Jordan.

Como complemento de todos os aspectos técnicos que funcionam no filme, o elenco ainda se sobressai e colabora para que toda a força de Mudbound: Lágrimas Sobre O Mississippi seja sentida pelo espectador. Mary J. Blige, indicada ao Oscar de Atriz Coadjuvante, assume o mesmo tom do filme na sua atuação. Ao mesmo tempo em que parece ser uma mulher tranquila, Florence Jackson esbanja força ao passar pelas provações que a história lhe traz. Rob Morgan, que interpreta Hap Jacknson, marido de Florence, segue o mesmo padrão e entrega um personagem admirável.

Mudbound: Lágrimas Sobre O Mississippi
Divulgação/Diamond Films Brasil

Dentro de todo o elenco ninguém se destaca mais do que Jason Mitchell, que é uma força da natureza ao viver mais uma vez na carreira um personagem forte e vigoroso que passa por momentos difíceis. Há pouco tempo o ator havia sido esnobado pela atuação impecável que teve em Straight Outta Compton: A História do N.W.A.. Agora, mesmo com uma grande atuação, talvez  ele não esteja a altura dos nomes escolhidos para figurar na categoria principal de atuação masculina do Oscar, entretanto, isso não desmerece ou diminui o que o ator fez em Mudbound. O percurso do seu personagem no filme é formidável e a sua cena final encerra a história com uma espécie de soco no estômago daqueles que se encontram nas poltronas do cinema.

Mudbound: Lágrimas Sobre O Mississippi traz de volta aos cinemas um tema que já foi abordado, mas com uma roupagem autêntica e com uma história ainda capaz de emocionar, chocar e surpreender o espectador. Dee Rees impõe força, poder e resistência no seu novo filme, que reforça um diálogo sempre bem-vindo sobre inclusão, respeito e igualdade.

Avaliação
Avaliação: Muito bom
8.0
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Editor-chefe e criador da Matinê Cine&TV. Fã de Harry Potter, O Senhor dos Anéis, Planeta dos Macacos, Star Trek, Star Wars, Marvel, DC Comics. Na TV The Walking Dead, Shameless, Jessica Jones, The Handmaid's Tale, entre outras, são algumas das suas favoritas.

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