“Em época de paz, os filhos enterram os pais. Em época de guerra os pais enterram os filhos.” – Até O Último Homem (2017)

Há um novo rumo que The Walking Dead precisa percorrer a partir de agora. Sem um dos seus principais personagens, que tinha o apreço de grande parte dos fãs, sem toda a audiência dos últimos anos e sem os elogios e as aclamações da crítica. Chegou a hora de The Walking Dead superar o desgaste dos oito longos anos no ar e mostrar que é capaz de se reinventar. A morte de Carl (Chandler Riggs) muda toda a perspectiva do que a série se tornará no futuro, abrindo também um leque de novas possibilidades para o programa, que em nenhum outro momento nesta oitava temporada teve a oportunidade de mudar o próprio rumo.

Honor“, a palavra, quase não precisa de tradução, pois se havia algo que The Walking Dead precisava fazer para si mesmo e para o seu público, era dar honra a um personagem desenvolvido desde o começo do programa e que esteve sempre ao lado do protagonista, principalmente quando o mesmo não tinha forças nem para se manter acordado. Carl deu ao retorno de The Walking Dead emoção, peso, tristeza, comoção e consequência. Esta última era um fator importante, pois começar uma guerra que em oito episódios não encontrou grandes consequências, mostra que há algo de errado com o roteiro.

Apesar disso, a morte de Carl não apresenta nenhuma ligação direta com a Guerra de Rick (Andrew Lincoln) contra Negan (Jeffrey Dean Morgan), já que a mordida que o infectou aconteceu quando o garoto estava dando uma perspectiva para Siddiq (Avi Nash), personagem que pode ganhar relevância daqui em diante. Contudo, a perda de Carl acarreta em uma série de ensinamentos que podem fazer a série voltar para os trilhos. Enquanto Rick parecia ser movido apenas pelo ódio, e um pouco pela vaidade, a morte de Carl parece ter despertado um elemento que estava em falta no protagonista: humanidade.

Se resumida de um jeito bastante simplista, The Walking Dead sempre fora sobre sobrevivência. Então, para esses personagens não existe uma causa mais nobre do que lutar pela vida e para que ela se torne melhor – com segurança, tranquilidade e tudo que é preciso para viver em paz. Ao contrário disso, a Guerra Total, como é chamada, pareceu ser movida, sempre, por matar, dar sangue ao espectador, dar cenas de ação, momentos épicos e tudo que é capaz de prender uma grande audiência. E essa visão está muito errada. Principalmente porque The Walking Dead sempre fez isso em segundo plano, pois em primeiro estavam os personagens e a sua relação afetiva com o público.

Vendo, então, por este lado, se a morte de Carl é capaz de trazer um novo sentido para a vida e visão de mundo de Rick, há males que vem para o bem e é preciso reconhecer que existe, sim, esperança em ver The Walking Dead trilhar um novo caminho afim de resgatar as qualidades que a consagraram e a fizeram reunir uma legião com milhões de fãs. A direção de “Honor“, assinada por Greg Nicotero, soube compreender o acontecimento mais importante que a série já teve, mas também entendeu que precisava respeitar, honrar e expor o legado que esse personagem deixaria para a série. A morte de Carl, logo, mesmo que prolongada por um episódio que tem mais minutos do que deveria, não poderia ser feita de um jeito diferente, sendo ela a dona de todos os pontos altos do episódio.

Enquanto a direção acertava de um lado, sendo bastante cuidadosa, de outro ela continuava refletindo problemas medíocres que a série ainda não cansou de apresentar. No começo, quando Carol (Melissa McBride) e Morgan (Lennie James), já juntos, começam a invadir O Reino para resgatar Ezekiel (Khary Payton) e, por parte de Morgan, matar Gavin (Jayson Warner Smith), o episódio inseriu os dois personagens em uma trama de assalto envolvente e inicialmente empolgante. Em contra partida, se o começo foi promissor, o desenvolvimento foi aos poucos perdendo essa magia.

A direção de Greg Nicotero foi fraca neste outro lado do episódio, era medíocre ver as cenas mal executadas em que os figurantes não demonstravam ação quando eram abordados por Carol e Morgan. Eles apenas se voltavam para os personagens e nitidamente aguardavam o golpe. As cenas, além de feias, eram fajutavas e perdiam o peso que pretendiam entregar ao expectador. Mesmo sabendo que se trata de televisão, The Walking Dead já fez melhor e foi até referência no quesito. Sendo assim, a mesma ação que fez bonito em outros momentos, não passou da cafona e, como já falado, fajuta no nono episódio da temporada.

Apesar de surpreender no final, com o pequeno Henry (Macsen Lintz) entrando em cena, The Walking Dead entregou um misto do que o público merecia assistir – uma morte digna do personagem (Carl) e que pode realmente mudar o panorama da série – com aquilo que fez a audiência do programa cair bruscamente na primeira metade do oitavo ano – cenas mal feitas, ação cafona e nada empolgante em um episódio que tinha, pelo menos, 10 minutos sobrando.

“Se você voltar a ser como era antes, é assim que poderia ser.” – diz Carl em seus últimos minutos para o pai.

Além de todo o sentimentalismo exaltado no episódios e da má condução do plot que dava certa continuidade para a história central da temporada, “Honor” trouxe respostas que resolveram bem as visões do Rick de barba branca. Quando a série entregou para o espectador que isso se trava de um desejo de Carl, a justificativa caiu como uma luva para o enredo – aliás, narrativamente, “Honor” foi um dos melhores episódios dessa temporada, principalmente porque a maioria dos outros capítulos que tentou fazer algo parecido acabaram sendo uma grande bagunça. O bom disso é que a justifica se torna ainda mais aceitável por ser contada através do ponto de vista do personagem, que ainda trazia consigo esperança, humanidade e ingenuidade.

Honor“, mesmo que fatídico, trouxe momentos comoventes para os fãs, que além de terem o emocional tocado pela morte de Carl, também viu reascender um pouco da verdadeira alma de The Walking Dead. As cenas fortes que precederam a morte do jovem personagem foram carregadas de diálogos emblemáticos e a morte em si não poderia ter sido mais respeitosa e dura do que Rick, Michone (Danai Gurira) e todos os espectadores ouvindo o último tiro de Carl em The Walking Dead.

Avaliação
Avaliação: Bom
7.5
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Criador da Matinê, está no 4º semestre do curso de jornalismo no Centro Universitário Ritter dos Reis - UniRitter. Aqui escrevo sobre filmes e séries a partir da minha perspectiva de mundo, sem medo de mostrar a todos o meu entendimento pessoal daquilo que assisto. O debate de pontos de vistas diferentes é livre, e sempre bem-vindo.