Baseado em Fatos Reais
Divulgação/Paris Filmes

Baseado em Fatos Reais é um filme complicado. Antes da sua história, há de um lado o seu diretor, constantemente acusado de estupro/abuso sexual, Roman Polanski, e de outro duas atrizes, Eva Green e Emmanuelle Seigner, que não merecem ter seus talentos diminuídos pelos erros do diretor em sua vida pessoal (pública). Elas, aliás, são o que o filme têm de melhor, já que Polanski, como diretor, não traz grande novidade ao contar uma história de narrativa confortável.

Delphine (Seigner) é uma grande escritora que está na turnê do seu novo best seller, Elle (Green) uma ghostwritter de livros autobiográficos de figuras públicas. As duas se conhecem em um cenário cotidiano, e com olhares diferenciados uma conquista a confiança da outra, mesmo que em tela tudo cause uma certa estranheza. Polanski tem um jeito peculiar de capturar suas personagens, onde sempre há uma com um pé na realidade e a outra totalmente fora disso. Esses são os papéis que Seigner e Eva Green desempenham, respectivamente.

Roman Polanski sabe que com isso pode criar certas expectativas no espectador, que, por méritos das atrizes, se vê rapidamente envolvido na história. A composição visual da personalidade das personagens é ainda mais interessante: Delphine não é uma mulher  muito vaidosa, usa calças jeans levemente desbotadas, uma camiseta cinza larga (daquelas de se usar nos finais de semana), maquiagem básica, mas sempre bem apresentável; Elle, ao contrário, é vaidosa, sensual, tem maquiagem e cabelos bem feitos, roupas de grife e aparece sempre muito elegante.

Assim, Delphine e Elle são, inicialmente, opostos, uma (Delphine) que em meio a sua desordem consegue se organizar e a outra (Elle), ao contrário, parece compulsiva por organização, com post-its criando linhas de pensamentos e tudo mais. Dentro disso, há ainda os apartamentos: um mais rústico, com a ausência de cores e texturas, mas charmoso de um jeito próprio; o outro elegante, contemporâneo, vivo e muito chamativo. Mas o mais importante dentro de todas essas composições está um detalhe importante, peça chave de toda essa história, o vermelho.

Baseado em Fatos Reais
Divulgação/Paris Filmes

A cor insiste em aparecer em roupas, batons, unhas, pequenos detalhes de cena, farol de automóvel, enfim, inúmeras vezes. Ao pensar em sua simbologia, o vermelho é rapidamente ligado ao amor, mas não é isso que ele significa aqui. Outras palavras que podem definir sua significância são desejo e obsessão, a primeira, no entanto, não está ligada de fato ao desejo sexual, já que aqui é associada a obsessão – sendo mais seguro dizer que ambas as partes tentam ser e ter aquilo que elas desejam.

Desenvolvendo essa relação de posse, desejo, obsessão, invasão e domínio, Baseado em Fatos Reais é um filme eficiente em suas manipulações. Rapidamente ele cria expectativas que logo são subvertidas que em seus rumos e acabam surpreendo o espectador. Eva Green, com toda sua psicose e olhar penetrante, ao lado de Emmanuelle Seigner, com seu charme discreto e vulnerabilidade, são o centro das atenções e embalam o interesse do público nessa história intrigante.

Baseado em Fatos Reais
Divulgação/Paris Filmes

Roman Polanski dirige o filme de forma confortável, não se arrisca na narrativa e a desenvolve com naturalidade. O senso de estranheza que ele passa ao espectador, que entrega desconfiança na troca, é natural e característico da sua assinatura. O ápice dramático também embarca nesse mesmo ritmo, mas com um carácter de alucinação que só Roman Polanski consegue proporcionar – algo muito particular da sua filmografia.

Baseado em Fatos Reais não reflete a genialidade de um diretor, hoje, de figura intragável, mas traz o que este ainda sabe fazer, o que por si só está acima da média. Se em sua execução consegue encontrar bons momentos, nas atuações de suas protagonistas o longa exibe o que tem de mais competente. Emmanuelle Seigner e Eva Green tornam Baseado em Fatos Reais um filme muito mais interessante, pois é a química entre elas que exalta, com tanta perfeição, tudo o que o filme quer nos mostrar. E a julgar pela característica da história e personalidade das protagonistas, dificilmente Roman Polanski teria um cast tão genuíno para encarnar suas personagens.

Avaliação
Avaliação: Muito bom
8.0
COMPARTILHAR
Editor-chefe e criador da Matinê Cine&TV. Fã de Harry Potter, O Senhor dos Anéis, Planeta dos Macacos, Star Trek, Star Wars, Marvel, DC Comics. Na TV The Walking Dead, Shameless, Jessica Jones, The Handmaid's Tale, entre outras, são algumas das suas favoritas.

Comentários