Objetos Cortantes

As coisas demoram para acontecer em Objetos Cortantes, e isso é uma característica que a série de HBO herda da obra de Gillian Flynn. Isso, claramente, não é um ponto negativo para a narrativa do programa, pois se a essência da obra original é, principalmente, desenvolver os seus personagens, a série não poderia ser diferente.

O terceiro episódio segue uma linha de pensamento bastante similar dos seus antecessores: acompanha o dia a dia de Camille enquanto ela procura por mais declarações para desenvolver suas matérias para o Chicago Daily Post. Contudo, quanto mais tempo a protagonista fica em Wind Gap, mais lembranças e sensações ruins afloram na sua mente. Sendo este, talvez, o principal diferencial deste episódio.

Na estreia, Vanish focou no retorno de Camille para Wind Gap. O segundo, Dirt, mostrou que os demônios da personagem não foram superados, e que eles continuam ali, prontos para atacarem a qualquer momento. Essa construção trata-se de uma crescente que começa, cada vez mais, a perturbar a protagonista. Assim como é na obra que baseia a série, Camille tem cada vez mais vontade de se deixar levar pelas mesmas atitudes que a fizeram recorrer a internação.

Enquanto Gillian Flynn optou por deixar de lado alguns detalhes sobre essa internação (o que no livro é cabível), a série seguiu por um caminho diferente, e neste episódio o programa usa de uma das suas vantagens como obra audiovisual: desenvolver detalhes importantes que a tornam um pouco diferente da obra original, respeitando a história e abraçando ainda mais a sua essência, porém, tornando-a mais completa em um ponto de vista televisivo.

Os flashbacks que mostraram Camille dando início a sua internação e conhecendo a jovem Alice (Sydney Sweeney de The Handmaid’s Tale), exploram o momento em que a série decide se afastar, levemente, da fidelidade a adaptação, abrindo espaço para momentos que vieram a calhar e que fazem sentido dentro do roteiro. É algo que na obra original, talvez, não se faça tão importante para o enredo, mas dentro do contexto da série o desenvolvimento de Alice foi bastante bem-vindo – mesmo que pouco.

Na versão televisiva da história, a impressão que fica mais latente é a da que Camille não tem muito com o que se importar, em relação as pessoas, exceto Curry que demonstra preocupação e alguma afeição a protagonista. Contudo, a relevância de Alice no último episódio mostrou que Camille se importava com a jovem, tanto que em um momento de fragilidade da mesma, a personagem de Amy Adams tentou confortá-la – exemplificando, ainda, a empatia de pessoas com problemas similares (é impossível afirmar que sejam iguais, mesmo que em seu resultado final ambas se cortassem, cada uma sentia a mesma dor de maneiras diferentes) -.

Objetos Cortantes

Fix, título do episódio, ainda cumpre com momentos chave na obra literária. Nele vemos que Camille é mais aberta com Richard, o Kansas City (Chris Messina), o que torna a história mais movimentada e explora, ainda, algumas novas facetas da protagonista, deixando-a mais a vontade dentro do ambiente, talvez, hostil que Wind Gap representa.

Além disso, Fix ainda reforça a essência do livro em relação as atitudes estranhas, sádicas e até mesmo doentias dos personagens. Amma (Eliza Scanlen) reforça uma das mudanças da série em relação ao livro: enquanto na obra literária a jovem tem uma personalidade sádica evidente, mas na adaptação vemos uma Amma eloquente, provativa, debochada e rebelde, sem ter, tanto, este lado doentio como característica. O mesmo, porém, não se repete com Adora (Patricia Clarkson), fielmente adaptada. Suas aparições até aqui transmitem que tanto roteiro e atriz conseguiram compreender o que e quem é a personagem.

Fix, então, reforça mais uma vez o direcionamento de Objetos Cortantes e da sua narrativa que mescla o clima de um thriller psicológico com uma investigação que caminha a passos lentos. A falta de fluidez ao não avançar a investigação, afim de descobrir quem cometeu os crimes, mostra que a série tem a intenção de respeitar a obra de Gillian Flynn, sem se render a qualquer tipo de atalho narrativo e seguindo o ritmo do livro.

Com isso, Objetos Cortantes mantém o espectador intrigado e acompanhando cada passo do seu desfecho, mas principalmente interessado em entender melhor esses personagens intrigantes e peculiares, ainda mais depois de Fix, o mais pesado entre os três episódios exibidos até aqui.

Para a próxima semana, um episódio similar deve ser exibido, mostrando, porém, algumas descobertas que podem mudar a visão dos personagens acerca dos dois assassinatos. Objetos Cortantes é exibida aos domingos pela HBO.

COMPARTILHAR
Editor-chefe e criador da Matinê Cine&TV. Fã de Harry Potter, O Senhor dos Anéis, Planeta dos Macacos, Star Trek, Star Wars, Marvel, DC Comics. Na TV The Walking Dead, Shameless, Jessica Jones, The Handmaid's Tale, entre outras, são algumas das suas favoritas.

Comentários