Imagem da 3ª temporada de Stranger Things
Imagem: Divulgação/Netflix

O final da segunda temporada de Stranger Things deixa um inquietante sabor de “a ameaça continua viva”. Assim, a série prende a expectativa dos espectadores e deixa-os curiosos para o que deve acontecer a seguir. Com “como será que o Upsidown vai voltar na próxima temporada?” de principal gancho, Stranger Things 3 começa a sua trazendo uma resposta para esta questão.

São necessários apenas cinco minutos de “Suzie, do you copy?” (primeiro episódio da temporada) para saber que o governo soviético criou uma máquina capaz de abrir um portal para o Mundo Invertido. Estabelecendo isso, Stranger Things tem como ponto de partida a intenção de ambientar o seu espectador em um novo contexto. O ano é 1985 (o mesmo que o referenciado De Volta Para o Futuro chega aos cinemas), e o grupo de crianças é agora um grupo de adolescentes.

Aos beijos, Mike (Finn Wolfhard) e Eleven (Millie Bobby Brown) abrem essa nova perspectiva, Lucas (Caleb McLaughlin) e Max (Sadie Sink) formam um outro casal, enquanto Dustin (Gaten Matarazzo), também apaixonado, retorna de um acampamento e Will (Noah Schnapp), agora em paz, parece ter parado no tempo – sua preocupação ainda são as campanhas de Dungeons & Dragons. Além deles, Steve (Joe Keery), Nancy (Natalia Dyer) e Jonathan (Charlie Heaton) agora estão fora do ensino médio e tentam ganhar a vida em empregos e estágios.

É uma nova fase para todos os personagens. Os jovens, com esse novo contexto, dão aos adultos novas preocupações. Hopper (David Harbour) não aguenta o grude de El e Mike, por exemplo. Despretensiosamente, Stranger Things preocupa-se em ambientar o espectador ao mostrar tudo o que a década de 1980 tinha de bom. Trilha sonora, os figurinos, a estética, os carros e tudo que as cenas mostram compõem isso criando uma atmosfera saudosista para quem viveu a década, assim como faz aqueles que nasceram depois quererem ter vivido nessa época.

Imagem da 3ª temporada de Stranger Things
Imagem: Divulgação/Netflix

São episódios leves que começam a construir a história do ano três, e embora tragam um clima mais amistoso, sempre há um momento que mostra que algo está errado e essa paz pode ser logo substituída pelo caos. Com calma, Stranger Things prepara o campo para este estopim.

Pouco a pouco, a série não só prepara o ambiente para o abalo, como subdivide a sua história em pequenos núcleos – o grupo de amigos, mesmo com pequenas cisões, o casal Nancy e Jonathan, Joyce (Winona Ryder) e Hopper, os Scoops Ahoy (Dustin, Steve, Robin e Erica). O roteiro cria um pequeno quebra-cabeças que aos poucos começa a fazer sentido, seu principal mérito está nos rumos que cada um desses núcleos toma ao longo dos episódios.

Todos eles, além de concatenarem as suas informações, também se encaminham para o mesmo epicentro: conter o Devorador de Mentes e fechar o portal para o mundo invertido, mais uma vez aberto em Hawkins. É como se uma estrada principal tivesse pequenas ramificações que, depois de um tempo, unem-se novamente em direção a um único objetivo.

O roteiro dá ainda mais personalidade aos personagens, inserindo-os em novas situações (como os relacionamentos), e com isso Stranger Things reafirma que o conjunto da obra é exemplar e o todo é o que ela apresenta de melhor, mais uma vez. Como se não bastasse a louvável construção, a contextualização ainda faz questão de representar a sociedade norte-americana anticomunismo, relembrando ainda que, em 1985, a Guerra Fria entrava nos seus últimos anos das disputas entre EUA e União Soviética (extinta em 1991).

Imagem da 3ª temporada de Stranger Things
Imagem: Divulgação/Netflix

Há, no ano três, um notável maior investimento em aspectos visuais. Sejam em efeitos especiais – para mostrar a máquina que abre os portais ou os pequenos e grandes ataques do Devorador de Mentes (Mindflyer) – ou para mostrar os poderes da El, Stranger Things não poupa esforços e entrega algo que, em tempos pós Game of Thrones, impressiona bastante – é elogiável, ainda, o fato de que visualmente, mesmo que com grande qualidade, a concepção visual seja feita em perfeita ambientação dos anos 1980 (algo caricato em determinados aspectos).

Ademais, Stranger Things 3 acertou nas pequenas novas investidas. Erica (Priah Ferguson), a irmã mais nova do Lucas, ganha espaço nos novos episódios e com falas memoráveis embala ainda mais a aventura da tropa do Scoops Ahoy. Isso serve também para Robin, nova personagem interpretada por Maya Hawke (filha de UmaThurman e Ethan Hawke) e um dos principais destaques da temporada. O cientista soviético Alexei (Alec Utgoff) é mais um acerto da temporada. Todos os citados, inclusive, caíram nas graças do público e são frequentemente comentados nas redes sociais.

A terceira temporada de Stranger Things funciona bem, é tudo harmônico, bem desenvolvido, bem encaminhado e bem concluído. Há um tom muito mais aventuresco do que emocional, assim como não tão grave em relação as temporadas anteriores – afinal, a questão aqui não envolve, por exemplo, a comoção do desaparecimento de Will, algo que abalou o emocional de todos os personagens próximos a ele.

Sem esse peso e densidade, Stranger Things liberta suas amarras (as quais também lhe faziam bem) e se permite brincar com a história, com os personagens e com as referências (quando iria-se imaginar que o governo soviético teria um Exterminador do Futuro a sua disposição, por exemplo?).

Imagem da 3ª temporada de Stranger Things
Imagem: Divulgação/Netflix

Stranger Things 3 é uma aventura deliciosa e envolvente, proporciona momentos empolgantes e emocionais, maduros e inocentes, mescla uma impressão adorável com outra admirável. A série evolui, cresce com os seus personagens, se mostra mais madura e confiante ao apostar em uma narrativa mais despojada. Aqui, o senso de gravidade abre espaço para o divertimento e com essa leveza, Stranger Things tira o peso dos ombros e surpreende com uma temporada impecável.

O final é tão conclusivo quanto o do ano anterior. Embora mais fechado – com os Byers e El de mudança -, as amarras não deram um nó total na história. Com novas questões abertas, Stranger Things mostra-se capaz de criar mais história em cima do seu universo (há, sim, uma clara expansão no mundo que aqui é concebido) e traz fôlego para o que foi desenvolvido no ano três.

Com temáticas importantes da adolescência e a inserção de discussões atuais, Stranger Things mesmo sendo uma obra referencial, é ainda um reflexo do seu tempo. Sua roupagem oitentista destaque-se do todo, mas em momento algum ignora o que, nos dias de hoje, é realmente relevante. O ano três, por consequência, é um emaranhado de acertos em cima de acertos.

Crítica | Stranger Things – 1ª temporada
Crítica | Stranger Things – 2ª temporada

Avaliação
Excelente
10.0
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Editor-chefe e criador da Matinê Cine&TV. Fã de Harry Potter, O Senhor dos Anéis, Planeta dos Macacos, Star Trek, Star Wars, Marvel, DC Comics. Na TV The Walking Dead, Shameless, Jessica Jones, The Handmaid's Tale, entre outras, são algumas das suas favoritas.

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