Elizabeth Olsen como Wanda Maximoff na série WandaVision do Disney+ | Crédito: Divulgação / Disney+

Matt Shakman, diretor dos episódios da minissérie, avisou: “alguns fãs com certeza ficarão decepcionados por causa de uma teoria ou outra”. A fala foi veiculada em uma entrevista dada por ele ao Entertainment Weekly, poucos dias antes desta sexta-feira, 05, dia em que chegou ao Disney+ o último capítulo de WandaVision. Para Shakman, que com certeza acompanhou os comentários dos fãs nas redes sociais, as ideias e teorias do que poderia acontecer no desfecho, talvez, tenham ido longe demais.

Para entender como tudo isso aconteceu é necessário retroceder para o princípio da série. WandaVision se propôs a mostrar o que aconteceu com Wanda (Elizabeth Olsen) depois de Vingadores: Ultimato. A trama trataria de um acontecimento caro para o emocional da personagem: a morte do Visão (Paul Bettany). Luto, dor e tristeza seriam sentimentos que com certeza estariam presentes na minissérie, e estiveram.

Com o tempo, soube-se que cada episódio de WandaVision faria uma homenagem a uma década específica da TV norte-americana. Mais precisamente a alguns sitcoms de sucesso dos Estados Unidos. Dos anos 1950 até os dias atuais, os capítulos da minissérie tiveram roupagens diferentes para encaixar cada peça do quebra-cabeças. Junto a isso havia ainda uma ponta de estranhamento que crescia a cada semana.

No começo, WandaVision pouco explicava e muito escondia, elemento crucial que fez desta a série mais assistida do momento, segundo o levantamento da Parrot Analytics divulgado pela Forbes. Além do crescente mistério e do senso de perigo, a série também foi se transformando. Por consequência criou expectativas altas nos fãs, que queriam o vilão Mephisto e o multiverso inseridos no programa. E o tombo veio com o episódio final, onde nenhum dos dois apareceu.

Contudo, é evidente que isso não joga o trabalho realizado por Shakman e a equipe de produção ralo abaixo. WandaVision é uma afirmação importante para o Disney+. Enquanto a plataforma de streaming conquistou a crítica com a qualidade de The Mandalorian (leia a crítica da 2ª temporada), era necessário manter o alto padrão com a primeira série integrada ao Universo Cinematográfico da Marvel (MCU).

Visão (Paulo Bettany) e Wanda (Elizabeth Olsen) em episódio da série WandaVision do Disney+ | Crédito: Disney+ / Uso de Imprensa

O primeiro elogio precisa ser para o conjunto formado pelo roteiro (texto/diálogos), design de produção, figurino, fotografia e trilha sonora. Enquanto a trama não evoluía para o mais importante, muito do prazer de assistir WandaVision estava presente no cuidado de desenvolver uma história central a partir de referências clássicas como I Love Lucy, A Feiticeira, The Brady Bunch, Três É Demais, Modern Family, The Office, entre outras.

Era interessante ver em tela como cada uma dessas séries influenciava o desenvolvimento de WandaVision, o formato da narrativa, o tom de cada capítulo. Tudo estava condicionado a ser modelado de acordo com a década e o programa que serviam de base para a homenagem. Em parte, foi também uma viagem pela história da TV. Esse era um charme da série.

Por outro lado, havia o foco em dois Vingadores importantes que foram vistos pela última vez em 2019, já que 2020, por conta da pandemia, foi o primeiro ano sem um lançamento da Marvel nos cinemas desde que o universo cinematográfico foi iniciado. Dito isso, Wanda Maximoff havia criado o chamado Hex, uma realidade alternativa com uma vida perfeita ao lado do amado Visão. Mas ela não sabia como tinha feito isso.

Em um primeiro momento essa era principal questão de WandaVision: como Wanda criou isso? Ou melhor, será que alguém está controlando ela e a fez desenvolver o Hex? O mistério estava plantado, e toda semana o público tentava encontrar respostas para explicar as perguntas. As explicações surgiam gradualmente, na medida em que outros elementos eram inseridos na minissérie. A S.W.O.R.D., o retorno de Darcy (Kat Dennings), Monica Rambeau (Teyonah Parris), Agente Woo (Randall Park), e claro, a vilã Agnes, que revelou ser a bruxa Agatha Harkness (Kathryn Hahn).

Depois de colocar as cartas na mesa, WandaVision ainda precisava responder novas perguntas e explicar o motivo de Agatha fazer tudo o que fez. O foco da série também mudou, e ganhou novas proporções. Nos capítulos finais, a minissérie assumiu o compromisso de contar a origem dos poderes de Wanda e de mostrar um dos acontecimentos mais importantes do Universo Marvel: transformar a personagem na Feiticeira Escarlate. Sem dúvida, este último, é uma das melhores cenas do seriado.

Elizabeth Olsen e Paul Bettany como Wanda e Visão na série WandaVision do Disney+ | Crédito: Divulgação/Disney+

É importante ressaltar a carga emocional presente nos últimos episódios. Enquanto havia um crescente terror psicológico sobre a protagonista, cenas como a de Wanda vendo os planos de construir uma casa com Visão, por exemplo, mostravam o impacto emocional que ela estava suportando. Ao bem da verdade, Wanda não entendia tudo que estava acontecendo, quando muito tinha conhecimento da dimensão dos próprios poderes.

Elogiado antes, o roteiro derrapa aos poucos no final. Com a corda apertando, a série precisou correr nos episódios conclusivos, momento em que WandaVision ganhou um ritmo mais apressado sem dar a mesma sustância (background) para a história. Não do jeito cuidadoso que fazia antes. A season finale, embora traga momentos épicos – sobretudo com a falta dos filmes de super-heróis da Marvel -, mostrou soluções fáceis ou desleixadas para núcleos que até então pareciam ter mais peso dentro do programa.

Cenas se justificaram para que personagens aparecessem de alguma forma e não ficassem esquecidos. Essa leitura feita especialmente sobre os últimos dois episódios de WandaVision sustentam o que deve ser a principal discussão, seja em concordância ou não, sobre a qualidade do programa. Fica muito claro, porém, que essa decisão foi apoiada pela clara continuidade que boa parte desses personagens terá na série Secret Invasion e nos filmes Doutor Estranho no Multiverso da Loucura e Capitã Marvel 2 – todos com lançamento previsto para 2022.

Não há problema em se apoiar nisso e muito menos em deixar plots (histórias) soltas para serem concluídas ou continuadas no cinema ou em outras séries. Isso era esperado, inclusive. O que é questionável é a forma como isso foi posto em tela, ou como foi escrito em roteiro até que fosse materializado no programa. E mesmo com os deslizes, a qualidade construída pela minissérie não é comprometida.

Em tempos em que o público está cada vez mais acostumado a ter temporadas completas entregues em um único dia, acompanhar WandaVision semanalmente, tendo seus episódios disponíveis para revisitas a qualquer momento, vale também a experiência. Lembra, por exemplo, de euforias pós Game of Thrones (leia a crítica da última temporada), onde muito se teorizava. É também prazeroso o fervor de terminar um episódio com “Stand by” no melhor momento daquele capítulo. Sem dúvida, muitos rostos incrédulos ficavam em frente à TV ou computador, contando os dias até a próxima sexta-feira. WandaVision errou tentando acertar, tinha muito a cumprir e é a primeira aventura da Marvel em formato de série – sem considerar Agents of S.H.I.E.L.D.

Em duas semanas, será a vez de Falcão e Soldado Invernal.

Avaliação
Ótima
8.0
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Criador da Matinê, está no 6º semestre do curso de jornalismo no Centro Universitário Ritter dos Reis - UniRitter. Aqui escrevo sobre filmes e séries a partir da minha perspectiva de mundo, sem medo de mostrar a todos o meu entendimento pessoal daquilo que assisto. O debate de pontos de vistas diferentes é livre, e sempre bem-vindo.