O mal nosso de cada dia - ronald ray pollock
Ronald Ray Pollock, autor de 'O Mal Nosso de Cada Dia' Divulgação: editora Darkside Books

A leitura de O Mal Nossa de Cada pode ser um desafio interessante. A história que segue a vida de algumas pessoas, que tem suas tramas interligadas por algo, faz parte de uma construção de mundo bastante particular. Dentro disso, o que mais é influenciado neste universo são os valores morais dos personagens de Donald Ray Pollock.

Este é o primeiro livro de Pollock, e foi publicado originalmente em 2011. O autor, antes de escrever, era operário e motorista de caminhão, nascido em 1954 e criado em Knockemstiff, Ohio. Aos 50 anos, Donald Ray Pollok ingressou na faculdade de Inglês na Universidade Estadual de Ohio. Essas informações são importantes para que se tenha um entendimento melhor da obra. Pollock, certamente, constrói O Mal Nosso de Cada Dia a partir de experiências que dão a sua mente o que ele precisa para conceber todas essas histórias.

Knockemstiff, cidade onde o autor foi criado, é um dos palcos para a trama dos personagens. Embora seja interessante ir conhecendo-os página a página, o que mais marca a leitura de O Mal Nosso de Cada Dia é o diálogo entre leitor e obra, onde a pergunta central é sobre qual o propósito de contar essas histórias. Escrever sobre o livro depois do lançamento da sua adaptação (intitulada de O Diabo de Cada Dia, disponível na Netflixleia a crítica aqui) reforça outro aspecto muito importante da obra: mesmo com descrições não tão detalhadas, as palavras de Pollock são, na mente, um convite visual.

Ao por nas páginas a descrição de cada pessoa e ao devagar sobre suas vidas, o narrador demonstra um grande conhecimento sobre elas, quase de forma íntima, mas ao mesmo tempo distante. É como se ele as conhecesse, mas nunca convivera com esses personagens. Existe ainda uma dose amarga nas suas palavras, e a termologia utilizada por ele, em inúmeras vezes, não poupa ninguém.

O mundo criado no livro parece decadente, mas acima de tudo é um lugar onde as pessoas usam a fé para justificar as suas ações. Por vezes, parece que erram para pedir perdão. Tudo isso, ao mesmo tempo em que são cegas por uma fé que não lhes dá resposta. Na verdade, O Mal Nosso de Cada Dia fala, e muito, sobre como as pessoas se relacionam com a fé, e sobre como a realidade do mundo influencia suas ações. A crença é sempre o recurso final, é o que vem depois do médico, é o último suspiro da esperança.

O desafio da leitura é a procura de entender o propósito dessas histórias. É interessante, ao longo do caminho, a forma que Pollock consegue interligar a vida dos personagens, seja direta ou indiretamente. Por vezes, o livro, também é uma leitura difícil. Os flashbacks são rápidos, e as vezes é complicado compreender que ele trecho é uma recordação. Por isso é fácil se perder. O sentido dessas escolhas, porém, pode ser intrigante.

Fotos do livro ‘O Mal Nosso de Cada Dia’ da DarkSide Books | Crédito: Arquivo Pessoal / Matheus Machado

Dentro dessa experiência, O Mal Nosso de Cada Dia ainda reserva um grande momento. Quem assistiu o filme, e não leu o livro certamente irá se surpreender. No audiovisual Robert Pattinson rouba a cena, e o mesmo acontece quando o pastor Preston Teagardin, personagem que ele interpretor, é inserido na história. Sem dúvida a pessoa mais impactante e inescrupulosa do livro. Sua presença atribui sentido a tudo que antes poderia não ter. A chegada do novo pastor é o ponto mais alto e claro sobre tudo o que Pollock fala no livro.

Desespero, tristeza, melancolia, fé, esperança, culpa, descontentamento, vício, humilhação e aceitação (seja do que for) são alguns dos sentimentos que estão impregnados nas páginas de O Mal Nosso de Cada Dia. São valores que moldam a vida, a personalidade e a consciência moral de cada um dos personagens. O que faz com que pessoas boas estejam dispostas a cometer atrocidades.

O que Pollock faz aflora inúmeros sentimentos e reações. Ficar chocado com acontecimentos pequenos, ser surpreendido por outros e se ver sem reação fazem parte do pacote. Para fins de comparação, sucinta, a adaptação condensa a história, suaviza muitos momentos chocantes, mas consegue carregar a aura da obra de Donald Ray Pollock. O livro, no entanto, é mais denso, pesado e interessante.

O Mal Nosso de Cada Dia é uma boa leitura, surpreendente, choca e intriga. O absurdo também faz parte da história e é bastante presente, sendo uma boa descrição para muito do que acontece nas páginas do livro. O segredo aqui é o básico sobre qualquer leitura: a história ficará sujeita a conexão do leitor com ela, e essa relação é que o vai moldar a experiência individual entre os dois.

O Mal Nosso de Cada Dia

Autor: Donald Ray Pollock
Ano: 2020 (tradução em português)
Editora: DarkSide Books
Páginas: 304
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Avaliação
Bom
7.5
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Criador da Matinê, está no 6º semestre do curso de jornalismo no Centro Universitário Ritter dos Reis - UniRitter. Aqui escrevo sobre filmes e séries a partir da minha perspectiva de mundo, sem medo de mostrar a todos o meu entendimento pessoal daquilo que assisto. O debate de pontos de vistas diferentes é livre, e sempre bem-vindo.