Mads Mikkelsen em cena do filme Druk - Mais Uma Rodada | Crédito: Vitrine Filmes / Henrik Ohsten

Indicado ao prêmio de Melhor Filme Internacional e Melhor Direção do Oscar 2021 (veja lista de indicados), Druk – Mais Uma Rodada, é uma conversa genuína sobre a vida. Em suma, é exatamente isso, mas traz uma teoria que torna a história mais interessante. A aplicação disso ao filme mostra que falar sobre as normalidades da trajetória que compõe, essencialmente, o meio dessa jornada é também ir além da crise dos 40 ou da meia idade.

Quando o filme começa não é a toa que um grupo de jovens faz uma corrida regada a bebida e diversão. Enquanto os mais velhos têm suas responsabilidades com o trabalho e a família, parte do que os adolescentes fazem é curtir a vida enquanto buscam um pé firme no futuro. É claro que suas vidas não se resumem a isso, mas com uma visão mais madura da situação e vendo o seu lugar atual, talvez essa seja a principal perspectiva.

Thomas Vinterberg, diretor do filme, constrói já nos momentos iniciais o que a vida daqueles quatro professores se tornou. Martin, o protagonista vivido por Mads Mikkelsen, era um dos melhores professores da escola e aspirante a uma bolsa de pesquisa para um doutorado. Mas sua vida mudou quando os filhos chegaram.

Esse olhar mostra que mesmo que todos, de certo modo, tenham vidas confortáveis, falta nelas um elemento essencial: a felicidade. Aproveitar mais a vida, sair mais, passear, viajar. E ao se verem nessas situações, eles demonstram ainda que há esperança para uma perspectiva melhor.

As camadas do filme ainda exploram outras nuances desses sentimentos. Martin, logo no começo, se vê confrontando essa ideia e vendo como perdeu o controle da sua vida ao deixar tudo cair na rotina. Isso é crucial para que os professores decidam fazer um estudo teórico-prático a partir do relato de Finn Skarderud, que afirma que a chave para a felicidade é suprir a falta de 0,05% de álcool no sangue.

Cena do filme Druk – Mais Uma Rodada | Crédito: Vitrine Filmes / Henrik Ohsten

Ao tratar o estudo como hipótese e ingressarem de vez nisso, a vida os professores muda. A narrativa se solidifica apoiando-se nessa experiência, mostrando o lado bom de ser mais alegre e confiante e o ruim do exagero. Embora cada personagem tivesse a sua motivação para escolher esse caminho, fica muito claro que de certa forma ele dá certo para três deles.

Mesmo que o filme evidencie bastante cada nível da pesquisa, ele não se restringe a dar o mesmo resultado para todos eles. Apesar de não aprofundar a maneira como cada personagem é afetado, o longa-metragem materializa o estudo de Skarderud. Mesmo que um deles tenha um desenvolvimento maior, é possível criar uma perspectiva dos efeitos de tudo aquilo na vida dos quatro professores.

É interessante acompanhar a visão do diretor para esses personagens e para os rumos que eles tomam em cada passo dessa experiência. Vinterberg ainda deixa muito claro que a linha moral de continuar ou não com o estudo é bastante tênue. O cineasta dinamarquês não pensa duas vezes em mostrar onde está o limite da pesquisa. Com isso, é notável que o filme comprova parte da teoria, enquanto legitima também as consequências negativas dela. Afinal, um dos momentos mais felizes de Martin é quando ele está sóbrio.

Com uma história que mescla a teoria com a prática e uma reflexão sobre manter o equilíbrio da vida pessoal e profissional, Druk – Mais Uma Rodada transita muito bem entre as nuances do drama, com verdade e sensibilidade em suas escolhas. O protagonismo de Mads Mikkelsen é um acerto, até porque sua parceria com o diretor já deu certo com A Caça (2012) – quando a obra venceu o Oscar de Melhor Filme Internacional um ano depois.

Mads Mikkelsen em cena do filme Druk – Mais Uma Rodada | Crédito: Vitrine Filmes / Henrik Ohsten

É inegável que a forma como Thomas Vinterberg conduz o filme em todas as suas nuances faz com que o conjunto funcione. Druk traz cenas deslocadas da história com um texto, por vezes semiótico, que contribui com a atribuição de significados deste drama. Embora seja pouco sutil quando faz isso, o cineasta encontra formas de tornar os conflitos palpáveis e passíveis da identificação do público. E ter essa capacidade de envolver as pessoas, para qualquer longa-metragem, é sempre um ponto a mais.

A sequência final de Druk é uma das mais contagiantes da temporada de premiações. É onde o filme culmina a subjetividade da interpretação do resultado do estudo com a experiência dos personagens com ele. Será que para ser feliz é só aproveitar mais a vida? A resposta está na tela: “Ousar é perder o chão por um momento. Não ousar é perder a si mesmo”. Thomas Vinterberg traz um longa-metragem envolvente que aposta no mais genuíno da arte de viver.

Druk – Mais Uma Rodada tem como diferencial o somatório do conjunto da obra, que dão ao espectador um filme de estética rica, uma história cheia de elementos importantes que ajudam a construí-la. As interpretações expressivas, com destaque óbvio para Mads Mikkelsen, são outro atributo, assim como a trilha sonora. Thomas Vinterberg sabe fazer com que tudo isso funcione. Mesmo do sofá, o público deve se sentir contagiado a pular com Martin ao som de “What A Life” (ouça a música), e a se jogar de vez nas ousadias do ato de viver.

Avaliação
Ótimo
8.0
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Criador da Matinê, está no 6º semestre do curso de jornalismo no Centro Universitário Ritter dos Reis - UniRitter. Aqui escrevo sobre filmes e séries a partir da minha perspectiva de mundo, sem medo de mostrar a todos o meu entendimento pessoal daquilo que assisto. O debate de pontos de vistas diferentes é livre, e sempre bem-vindo.