imagem do filme Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Jessie Buckley como Agnes em imagem do filme Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, em carta no Brasil a partir de 15 de janeiro. | Imagem: Divulgação/Universal Pictures.

Hamnet: A Vida Antes de Hamlet poderia ser somente um ótimo drama da temporada de premiações. No entanto, a adaptação dirigida por Chlóe Zhao (Nomadland) transcende a barreira do gênero, levando o público para uma jornada emocional avassaladora. 

O filme é uma adaptação de Hamnet, de Maggie O’Farrell, que também assinou o roteiro do longa-metragem ao lado da cineasta chinesa. A trama dá nome e história para Agnes, vivida por Jessie Buckley. A autora da obra literária utiliza os poucos registros históricos da esposa de Shakespeare para criar o livro que agora ganha também as telas dos cinemas.

Em Hamnet, o público conhecerá uma mulher que encontra no contato com a natureza a sua conexão com o mundo e a vida até que o amor avassalador por um jovem, William Shakespeare (Paul Mescal), atravessa seu caminho. Neste contexto, ao conhecer Agnes e William, o público pode se conectar com a obra pela paixão intrínseca do texto e pelas imagens delicadamente capturadas pelo longa-metragem. Na medida em que o filme avança, o amor floresce e se torna maternidade. 

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Jessie Buckley e Paul Mescal como Agnes e William em imagem do filme Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, em cartaz no Brasil a partir de 15 de janeiro. | Imagem: Divulgação / Universal Pictures.

Momento a momento, Chlóe Zhao redesenha com naturalidade cada etapa da vida desses personagens, com foco nas mudanças e nos impactos de cada rumo apresentado. Um domínio preciso de construção e condução de narrativa e personagens.

A delicadeza volta para a tela quando a diretora retrata parte da infância dos filhos de Agnes e William. Desta forma, acompanha Hamnet (Jacobi Jupe) com a pureza necessária que só uma criança é capaz de ter. A sensibilidade apurada da diretora torna cada personagem digno da empatia do espectador.

Na época em que a trama se passa, a Europa é assolada por surtos de peste bubônica, o que coloca no meio do longa-metragem não o clímax da história, mas o seu ponto de ruptura. É neste momento que o amor se torna dor e luto.

A construção de Hamnet (Jupe), que conquista a simpatia do público, chega ao momento fatídico de sua partida. Uma sequência de acontecimentos tão comoventes quanto dilacerantes. O significado da escolha de uma criança, cuja inocência é atravessada pela injusta maturidade que lhe é exigida, gerando um dos momentos dramáticos mais importantes da sétima arte neste século.

A sequência resulta em uma das atuações mais poderosas dos últimos anos que poucas atrizes, além de Jessie Buckley, poderiam entregar com tamanha perfeição. Não se trata de uma cena apenas digna de Oscar, mas de um momento memorável que só o tempo e o público podem preservar.

Hamnet, filme e personagem, morrem ao mesmo tempo. A partir disso, a melancólica e dolorosa poesia visual de Chlóe Zhao embarca profundamente no luto da mãe e na incapacidade de demonstração emocional do pai. Desta forma, o público acompanha o sofrimento mútuo de duas pessoas que não conseguem ser aquilo que precisam um para o outro. 

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Jacobi Jupe como Hamnet em imagem do filme Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, em cartaz no Brasil a partir de 15 de janeiro. | Imagem: Divulgação/Universal Pictures.

No filme, William Shakespeare é marcado pela audiência exigida pelo seu trabalho. Não se trata de uma biografia do gênio, mas de um retrato humano a partir de uma perspectiva específica que coloca uma personagem apagada da história no centro de uma trama sobre paixão, maternidade e luto.

É comum que a vida pessoal de figuras tão conhecidas seja menos maravilhosa do que suas aptidões. Então, embora seja incapaz de expressar a própria dor e acolher a esposa e mãe enlutada, William cria, a partir da sua incapacidade emocional, uma das peças mais renomadas da história. A dor, então, vira arte. 

O luto e a lacuna da ausência não podem ser preenchidas, mas as memórias que resultam em saudades e colocam a mente em um ciclo eterno de reviver o que houve de bom dão a Hamnet (filme) uma nova forma de viver. Assim como Agnes, ao ver a estreia de Hamlet, enxerga no palco uma nova vida para o filho que perdeu.

Na peça encenada no filme, Hamlet é interpretado por Noah Jupe, irmão de Jacobi Jupe. A poesia, a tragédia e a ironia andam lado a lado na obra de Chlóe Zhao. É desta maneira e neste momento que Hamnet: A Vida Antes de Hamlet transcende em si. 

Poucos filmes são capazes de causar tamanha comoção sem apelar. O equilíbrio entre controle e sensibilidade na condução desta trama soma-se à precisão técnica de quando o filme precisa falar com o público. Sem o intermédio de recursos estéticos moldados com a finalidade de causar algo, Hamnet: A Vida Antes de Hamlet mostra que é cinema, arte, poesia e tragédia. Uma história para ser vista e sentida.

Assista ao trailer de Hament: A Vida Antes de Hamlet

O filme está em cartaz nos cinemas brasileiros a partir desta quinta-feira, 15.

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