
Steven Soderbergh retorna aos cinemas pouco tempo depois da estreia do seu novo thriller, Código Preto (em cartaz desde o dia 13 de março). Em Presença, o diretor estadunidense de 62 anos deixa de lado o gênero que o notabilizou e realiza um filme mais próximo do terror.
Com roteiro de David Koepp (O Quarto do Pânico), Presença, em cartaz a partir do dia 03 de abril, acompanha uma família que se muda para um lar na esperança de recomeçar a vida após uma perda. Ao chegar na nova casa, alguns acontecimentos fazem com que Rebekah (Lucy Liu), Chris (Chris Sullivan), Chloe (Callina Liang) e Tyler (Eddy Maday) entendam que não estão sozinhos.
Presença é o tipo de filme que busca estabelecer elementos característicos de um gênero para utilizá-los ao seu favor. Com isso, o filme emula símbolos já conhecidos de histórias de possessão. A vantagem disso está na possibilidade de apostar no simples para fazer o diferente.
A busca por um diferencial começa no estilo de filmagem adotado por Steven Soderbergh, que também assina a fotografia da obra. O cineasta faz com que a imagem exibida na tela do cinema seja a da perspectiva da presença que está na casa.
No entanto, mais do que emular um ponto de vista, o diretor atribui personalidade à imagem. Desta forma, a presença não é mera observadora da vida das pessoas que estão ali. A câmera, então, torna-se participante da história, demonstrando sentimentos a partir do que acontece no filme.
Mistério imersivo

O diretor constrói duas ideias centrais: a primeira é a de imersão, pois o filme é uma colagem de diversos planos-sequências que causam a sensação, para quem assiste, de estar acompanhando os fatos assim como a tal presença; e a segunda é o mistério, afinal, quem é essa figura invisível e porque ela é tão afeiçoada a alguns personagens?
A combinação entre a sensação de imersão e o mistério que paira sobre o dono do ponto de vista da história são os principais motores de Presença. Mesmo que o filme traga para a tela acontecimentos que ocorrem fora da casa, somente o que se passa do lado de dentro da porta daquela casa realmente importa.
A partir desta ideia de mistério, Soderbergh desenvolve em tela um roteiro que atira para alvos diferentes, na intenção de fazer um jogo de gato e rato com o espectador. Neste sentido, Presença demonstra proximidade do espiritismo em suas justificativas, distanciando-se de histórias de possessão como Invocação do Mal (2013).
O título corrobora com isso, pois, por mais óbvio que pareça, existe uma diferença entre presença e possessão.
Repetindo erros
Boa parte dos filmes de terror de espetacularização da possessão demoníaca começam bem e terminam mal. São histórias inventivas e intrigantes que perdem o peso quando começam suas explicações expositivas nos 40 minutos finais.

Ao apostar na repetição do que caracteriza estes filmes, o roteiro de David Koepp não desvia destas armadilhas. Não satisfeito com o significado das imagens que produz, Soderbergh procura no texto uma tradução para o que o espectador assiste na telona.
No fim, qualquer esforço mental do público será em vão. Adivinhando ou não as respostas das principais perguntas do filme, os espectadores sairão da sala do cinema com todas as respostas de que precisam. Assim, Steven Soderbergh elimina até mesmo a cadeia de produção do famigerado final explicado.
Intrigante pelo mistério e inventivo pelas escolhas visuais da lente grande-angular que simula uma visão humanizada e aproveita o espaço dos ambientes, Presença perde sua força em um texto que exagera na tradução do próprio filme.
Embora tenha um pé nos filmes de terror comuns, Presença dialoga com o terror social ao abordar ainda a vida de jovens e o distanciamento deles com os pais. Assumindo esta responsabilidade, o filme explora os perigos da falta de orientação e o resultado da vulnerabilidade emocional constantemente aproveitada por homens sem escrúpulos.
Presença, embora repita os erros dos filmes que tenta simular, pode entregar aos espectadores uma história chocante que os faça pensar mais nos perigos do mundo real do que no próprio filme. Desta forma, cumpre um papel mais interessante pela provocação simbólica do que pela experiência cinematográfica em si.
Assista ao trailer de Presença
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