imagem do filme A Noiva
Jessie Buckley e Christian Bale em imagem promocional de A Noiva! (2026), filme escrito e dirigido por Maggie Gyllenhaal. | Crédito: Divulgação/Warner Bros.

Não é possível afirmar que a equipe que produziu e realizou A Noiva! (2026) está acompanhando o noticiário brasileiro e vendo a onda de feminicídios e crimes bárbaros contra mulheres que assolam o país no momento em que o filme chega aos cinemas. No entanto, a história contada no segundo longa-metragem de Maggie Gyllenhaal é também sobre uma reação de mulheres que estavam sendo violentadas e assassinadas. Como forma de silenciamento, os agressores e assassinos ainda arrancavam as línguas para enviar uma mensagem àquelas que ainda mantinham suas vidas.

Embora este contexto se assemelhe ao que se vive na realidade do Brasil neste momento, a violência contra a mulher é apenas uma parte de A Noiva! (2026). Com direção e roteiro de Maggie Gyllenhaal, o filme é uma reimaginação da história contada em 1935 em A Noiva de Frankenstein. No novo filme, o homem reanimado procura a Dra. Euphronious (Annette Bening), em Chicago, porque está morrendo de solidão. Frankenstein, vivido por Christian Bale, quer uma igual para chamar de sua e é a partir daí que a revolução começa.

A Noiva! (2026) não é apenas uma reimaginação de outro filme, mas também uma nova forma de mostrar o surgimento dos movimentos feministas em um momento em que mulheres eram silenciadas. Com a personagem de Jessie Buckley, que flerta com diferentes tipos de nomes ao longo do filme e sem que qualquer um realmente se encaixe, o longa questiona e derruba as convenções da época que refletem ainda hoje o lugar de poder dos homens na sociedade.

Neste contexto, o filme apresenta um texto que busca equilibrar a complexidade poética e teatral com um núcleo de personagens mundanos que aplicam no cotidiano o domínio masculino que apaga os méritos femininos. É desta maneira questionadora que A Noiva! coloca as mulheres no centro das ações, com Jessie Buckley em papel duplo ao dar vida também a Mary Shelley (autora do clássico literário Frankenstein de 1818), que nesta reimaginação, conta para o mundo a história revolucionária que sempre quis escrever.

imagem do filme A Noiva! (2026)
Annette Bening como Dra. Euphronious em cena de A Noiva! (2026), escrito e dirigido por Maggie Gyllenhaal. | Crédito: © 2026 Warner Bros. Entertainment Inc. Todos os direitos reservados.

Para que tudo isso tenha impacto na tela, Maggie Gyllenhaal resolveu orquestrar um filme autoral cuja estética rompe a barreira histórica, trazendo para a tela a estética e o movimento como uma referência contracultural agressiva. Neste caso, violência gera mais violência, sobretudo quando se está cansado de tantos absurdos. É desta forma que homens exercem o seu controle, não apenas sobre as mulheres, mas uns sobre os outros, porque há também nessa história um conflito com a máfia que transforma os supostos homens bons em policiais corruptos.

Desta forma, Maggie Gyllenhaal constrói amarrações sólidas em sua história. A diretora e roteirista une a sobrevida que dá a Mary Shelley com a vida de uma Ida (Buckley) violentada e assassinada. Depois, a partir de um pedido de socorro de Frankenstein, a Dra. Euphronious cria A Noiva, cujo nome nenhum lhe cabe, e em uma reação instintiva a personagem que dá nome ao filme age como uma forma geométrica rebelde, como bem explicado em um momento da própria história.

Com isso, entra no jogo uma dupla de investigadores, em que a mulher é constantemente invalidada, a não ser pelo suposto colega legal que em nada ajuda na causa. No entanto, a personagem vivida por Penélope Cruz é a verdadeira detetive que procura uma solução para a sequência de crimes que acontecem durante a história.

Com essa perspectiva estabelecida pelo longa-metragem, a personagem de Jessie Buckley se torna uma personificação de todos esses significados. Então, a protagonista entra em cena para desafiar essas convenções e não para realizar o desejo de Frankenstein. Com este espírito rebelde que não cabe em uma sociedade tão atrasada, A Noiva! (2026) é uma história de amor, crime e revolução.

imagem do filme A Noiva! (2026)
Jessie Buckley em cena do filme A Noiva! (2026), escrito e dirigido por Maggie Gyllenhaal. | Crédito: © 2026 Warner Bros. Entertainment Inc. Todos os direitos reservados.

Eu prefiro não“, responde a personagem de Jessie Buckley em diversos momentos do filme quando alguém lhe pede algo. Dizer não em uma sociedade que há séculos te obriga a dizer sim é um ato revolucionário. Desta maneira, o movimento instintivo da personagem toma as ruas e sua marca se espelha em outras mulheres que se empoderam e passam a dizer não para a violência e o apagamento.

Enquanto o texto se mostra potente em significado e a história transita entre tons poéticos e acessíveis, Maggie Gyllenhaal constrói sua ambientação na década de 1930 utilizando o gótico melancólico atravessado pelo punk do futuro. Com isso, a diretora deixa claro que o movimento feminista também é estético, compreendendo isso não apenas como visual, mas principalmente como um conjunto de símbolos que causam impacto. A maquiagem borrada, as roupas desabotoadas e os cabelos desarrumados vão de encontro à perfeição que as mulheres precisavam ter. Se as palavras e as atitudes causavam esse efeito contrário, o vestido laranja desabotoado usado pela protagonista também é um ato revolucionário.

Além de expor todas estas ideias e encontrar maneiras de deixá-las fluir permeando a história, Maggie Gyllenhaal ainda constrói um amor que não encaixa seus personagens em um imaginário coletivo já estabelecido. O caminho escolhido pelo filme coloca “A Noiva e seu Frankenstein” em lugares de compreender um ao outro, sem que ambos deixem de ser aquilo que são. Isso vai ao encontro da ideia que o longa produz sobre sua protagonista, diante da sua nova vida, descobrir a mulher que é e que antes nunca pôde ser. Assim como coloca a figura marcante do horror em um lugar de perturbação, em frente à desconstrução do seu mínimo lugar de poder herdado pelo gênero que carrega.

imagem do filme A Noiva! (2026)
Penélope Cruz em cena de A Noiva! (2026), escrito e dirigido por Maggie Gyllenhaal. | Crédito: © 2026 Warner Bros. Entertainment Inc. Todos os direitos reservados.

A Noiva! (2026) pode ser um filme de crime ao estilo Bonnie e Clyde com o tempero eloquente do que Coringa: Delírio à Dois (2024) jamais foi capaz de entregar (aliás, este novo filme, talvez seja muito feliz na proposta de ter em A Noiva e Frankenstein uma Arlequina e um Coringa mais interessantes do que a obra de Todd Phillips). Entre a poesia e o texto acessível, Maggie Gyllenhaal convida o público a se impactar com o seu segundo longa-metragem e a pensar em como existir hoje. Nem sempre o cinema é só cinema. Às vezes, a arte ajuda as pessoas a olharem o mundo que habitam, identificando problemas, refletindo sobre a história humana que os levou ao hoje e que pode fazer um novo amanhã.

Esse é um poder que somente a sétima e outras instâncias da arte podem causar. Somente os filmes, séries, a literatura ou pinturas conseguem impregnar-se na mente de quem as assistiu, leu ou observou. Mesmo chocantes, as notícias são consumidas como uma enxurrada de informações que impactam e revoltam, mas que nem sempre ficam. A arte, por outro lado, persiste, permanece, incomoda, acompanha e vira memória. A Noiva! (2026) é um filme autoral, com traços marcantes que revelam o potencial artístico e criativo de Maggie Gyllenhaal, que entrega ao público uma história, que aos olhos de muitos, pode ser um ótimo filme, enquanto em outros tem a chance de ser algo que transcende a ideia de ser apenas um filme.

Assista ao trailer de A Noiva! (2026)

– Siga a Matinê nas redes sociais: InstagramThreadsFacebookTikTokYouTube.