Tom Holland como Arvin em cena do filme
Tom Holland no filme O Diabo de Cada Dia, da Netflix | Imagem: Cortesia/Netflix

Quando passam os créditos iniciais e a narração abre os trabalhos da adaptação de O Mal Nosso de Cada Dia, Donald Ray Pollock (autor do livro e dono da voz de fundo) se junta ao diretor Antonio Campos com a mesma intenção: convidar o espectador para assistir a história que eles querem contar. O cineasta, metade brasileiro (Campos é filho do jornalista Lucas Mendes) é um contador de narrativas densas.

Embora não tenha tantos trabalhos, Antonio Campos destaca-se principalmente no longa-metragem Christine lançado em 2016. Nele, o diretor conta a história real de uma jornalista que se mata ao vivo em rede nacional. O filme faz um retrato da vida de Christine Chubbuck, interpretada por Rebecca Hall, até o momento da sua morte. Christine, o filme, não tem absolutamente nada a ver com O Diabo de Cada Dia, que chegou ao catálogo da Netflix na última quarta-feira (16/09).

Recapitular o longa-metragem que representa o principal cartão de visita de Antonio Campos se faz necessário para entendê-lo como diretor. Campos não conta histórias difíceis, não faz rodeios sobre começo, meio e fim. Ele quer deixar claro o que pode acontecer. Sua intenção é retratar essas histórias do início até o fim de maneira que você, espectador, permaneça envolvido. Embora as 2h20min (arredondadas) pareçam cansativas, é difícil afirmar que a trajetória de Arvin (Tom Holland) seja inflada. Tudo que é contado precisa estar ali do jeito que está, caso contrário não funcionaria.

Ao bem da verdade a Netflix surpreendeu ao tirar da cartola um filme de premissa interessante, feito por um diretor promissor e com um elenco estelar. Em 2017, Robert Pattinson já havia aceitado o seu papel e decidiu fazer sozinho o sotaque do pastor que ele interpreta no filme. Quando uma notícia dessas domina a cobertura dos sites de cinema, com os nomes envolvidos (Jake Gyllenhaal é um dos produtores) é impossível não afirmar que este é um dos principais lançamentos do ano.

Tom Holland no filme O Diabo de Cada Dia, da Netflix | Imagem: Cortesia/Netflix
Tom Holland no filme O Diabo de Cada Dia, da Netflix | Imagem: Cortesia/Netflix

Em contra partida, a peça de divulgação previa um filme mais enérgico, o que influencia diretamente na experiência individual de cada um com o longa. A história é bem contada, os fatos e os grandes momentos estão ali, mas Campos não explode em tela. O Diabo de Cada Dia é um filme contido, como a vida dos seus personagens. Mesmo quando Arvin bate nos valentões que incomodavam a irmã que a vida lhe deu, O Diabo de Cada Dia mantém os pés no chão. O ponto pode ser a sua sobriedade e a falta de sensacionalismo que os filmes costumam trazer.

Por outro lado, há elementos que se sobressaem, como o arranjo precioso entre o conjunto da obra, que foi tão bem realizada. Logo quandoo filme é introduzido, a trilha sonora se destaca. Harmoniosa com as imagens e a narração de Pollock, a composição sonora é peça importante para a construção da atmosfera do longa. O Diabo de Cada Dia traz um cenário de tristeza e depressão que se escora na esperança religiosa das igrejas e dos pregadores.

Antonio e Paulo Campos (os irmãos assinam o roteiro) criam um diálogo sobre fé e crença que fazem parte da essência de O Diabo de Cada Dia. Naquele tempo, o que as pessoas tinham, fora os poucos bens, era a própria fé. Os ícones religiosos estão por toda parte para serem adorados da forma que cada crença acredita que deva fazer. E isso não muda. O que diferencia neste cenário e que rege o longa-metragem, são as pessoas. Elas, talvez, sejam o grande problema.

Neste ponto, o filme faz a arte imitar a vida ao construir uma sociedade com base em valores atrelados a moral cristã. Muito do certo e errado, na obra, depende da aprovação de Deus. As vontades, desejos e discernimentos das pessoas influenciam as suas interlocuções divinas. A problemática que o filme levanta é justamente a concretização dessa relação. O homem que acredita que pode matar e ressuscitar; o pastor que faz jovens acreditarem que podem ficar nuas e lhe dar prazer porque essa é a vontade de Deus.

Robert Pattinson no filme O Diabo de Cada Dia, da Netflix | Crédito: Cortesia/Netflix
Robert Pattinson no filme O Diabo de Cada Dia, da Netflix | Crédito: Cortesia/Netflix

Ao mesmo tempo em que fala sobre fé, O Diabo de Cada Dia também conversa sobre sobrevivência. O filme coloca o espectador em dilemas sobre o básico da moralidade. Como um casal que pratica o voyeurismo (quando uma pessoa sente prazer ao ver outra(s) pessoa(s) realizando alguma prática sexual), fazendo o espectador descobrir que na verdade são uma dupla de serial killers. E essa moral é colocada em prova de novo quando Arvin (Holland) diz que é uma boa pessoa, depois de ter agredido, matado e estava prestes a assassinar mais um personagem.

Embora não tenha um grande momento de êxtase, O Diabo de Cada Dia traz peso a história. O filme encontra o seu melhor na narrativa bem construída, que mesmo pouco inventiva se direciona para um bom ponto de encontro. Dentro da harmonia regida por Antonio Campos, o que realmente se destaca tem nome e sobrenome. Robert Pattinson, Tom Holland e Bill Skarsgard (nesta ordem), com menções honrosas para Harry Melling e Riley Keogh, garantem o que O Diabo de Cada Dia tem de melhor: as suas atuações.

Avaliação
Bom
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Criador da Matinê, está no 4º semestre do curso de jornalismo no Centro Universitário Ritter dos Reis - UniRitter. Aqui escrevo sobre filmes e séries a partir da minha perspectiva de mundo, sem medo de mostrar a todos o meu entendimento pessoal daquilo que assisto. O debate de pontos de vistas diferentes é livre, e sempre bem-vindo.