Crítica | 13 Reasons Why – 1ª Temporada

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Imagem: Divulgação/Netflix

Quantas séries adolescentes já foram feitas na televisão norte-americana? Muitas. Quantas delas abordam assuntos importantes da forma certa para conscientizar as pessoas sobre determinados assuntos? Poucas, ou talvez, nenhuma. Agora, quantas delas são feitas para se aproximar da realidade e não criar uma ilusão por puro entretenimento como apelo do público jovem? Quase todas. Existe alguma exceção, que mostra a realidade nua e crua e ao mesmo tempo abre os olhos do público sobre como é o mundo real? Sim. Prazer, 13 Reasons Why.

O novo fenômeno da Netflix é um bom mau necessário. Bom por trazer algo muito mais do que o suicídio como tema, e mau por simplesmente mostrar a verdade, afinal, ela dói. Hannah Baker (Katherine Langford) é um milhão de pessoas que se encontram em uma mesma situação: sofrendo as penalidades do ensino médio. Essa fase de descobrimento, as vezes, é a melhor época da vida de uma pessoas – pois o sucesso e a fama na escola podem não se repetir na vida adulta -, assim como pode ser a pior – pois sempre há aqueles que são tirados como esparro, o feio, o gordo, o magro, o nerd, o narigudo, o orelhudo, o boca virgem, o virgem entre muitos outros esteriótipos do que as pessoas não podem ser no colegial -. Enfim, Hannah Baker representa uma boa parcela da população mundial que sofre as piores coisas do ensino médio.

Na série, a jovem que grava em fitas tape os 13 porquês de sua morte mostra que nem sempre é possível superar ou ter esperança, seja nas pessoas ou na própria vida. Com certeza, muitos já chegaram a essa mesma situação, de tirar a própria vida, mas nem todos tiveram a atitude de Hannah: ter a dor de cortar seus pulsos como o seu último sofrimento. Ou seja, 13 Reasons Why, em alguns momentos, coloca a seriedade do seu assunto à frente da sua qualidade narrativa, afinal, é preciso ceder e ter o devido discernimento de que a história deve estar acima de qualquer aspecto técnico.

Por outro lado, ao longo de seus 13 episódios, 13 Reasons Why deixa uma margem interpretativa muito ampla para quem está assistindo. Ao retratar um suicídio, a série precisa deixar claro que não existe uma outra opção, não existe uma válvula de escape que possa mudar alguma coisa e aquela pessoa, enfim, opte por não tirar a própria vida. Ao invés disso, durante 12 episódios há, sim, um questionamento incomodativo que abre a interpretação para o público, de uma forma pessoal, capaz de questionar a atitude da jovem – não seria egoismo tirar a própria vida, sem pensar na dor que isso causaria as pessoas, mesmo poucas, que realmente se importam com Hannah Baker? Talvez. -. Por outro lado, o último episódio fecha essa margem, na verdade a destrói, pois o foco é mostrar que depois de tentar um último recurso não há mais nenhuma opção a não ser aquilo que todos já sabem. E isso é importante, a vida era dela, mesmo jovem, ela é dona de si e decidiu por ela mesmo.

Imagem: Divulgação/Netflix

Clay (Dylan Minnette), Justin (Brandon Flynn), Jessica (Alisha Boe), Alex (Miles Heizer), Tony (Christian Navarro), e os outros jovens tiveram, em sua maioria, o espaço necessário para mostrar um devido e interessante desenvolvimento (em prol do crescimento) dos personagens. Mas ao bem da verdade, 13 Reasons Why sofre com a normal barriga das séries da Netflix, além de apresentar uma história que só começa a andar, ou mudar, a partir do seu sexto episódio. Ainda assim há destaques positivos em relação aos personagens, Clay, por exemplo, conta com a ótima interpretação de Dylan Minette, que carrega a série nos ombros. Assim como Christian Navarro, que consegue entregar o crescimento de Tony na reta final da temporada.

Além dos jovens, há espaço para a dor conflituosa dos pais de Hannah, que é passada por Kate Walsh e Brian d’Arcy James de modo comovente, tanto nos momentos em que o casal tenta escapar daquilo que aconteceu, como também nas horas em que ambos decidem enfrentar de peito aberta e cabeça erguida a realidade da perda do seu bem mais precioso. Walsh, por outro lado, é a que melhor passa isso, afinal a diferença dramática da atriz entre passado e presente é chocantemente notável.

Os episódios iniciais, dirigidos pelo produtor-executivo Tom McCarthy, são os melhores se tratando da evolução narrativa. McCarthy é o responsável por Spotlight – Segredos Revelados (melhor filme do Oscar 2016), e assim mostra que sabe lidar com informações, organizando-as de forma aconchegante e interessante. Porém, isso não se repete nas mãos de outros diretores. O roteiro é problemático, mas consegue unir os fatos de forma coerente ao entregar a história ao público, e este não necessariamente jovem.

Imagem: Divulgação/Netflix

Apesar das irregularidades narrativas, em que muitos episódios são bizarramente estranhos ao mostrar a evolução dos seus acontecimentos, a série ainda está acima da média com o cuidado nos detalhes. Com isso, a fotografia talvez seja um grande diferencial. Não pela beleza, pois se analisada de perto não foge dos padrões normais da TV, ou da Netflix. Porém, visualmente há oscilações entre tons amarelados e acinzentados que diferem o passado do presente de forma consciente. E assim, a fotografia encontra o seu ápice no episódio final, onde nas cenas em que Hannah e Clay protagonizam diálogos pesados e chocantes com o Orientador Kevin Porter (Derek Luke), a câmera – habilmente manuseada por Kyle Patrick Alvarez – mostra a troca natural da paleta de cores e chama a atenção a cada uma dessas trocas, afinal a imersão causada pelo episódio nessas cenas é quase inacreditável.

Com os pequenos problemas de desenvolvimento, há momentos em que a série perde o rumo de alguns personagens, que aparecem da forma mais genérica possível, para criar uma imagem desnecessária de falsos vilões. 13 Reasons Why não precisava trazer isso para o mote de sua história, afinal a abordagem da série procura explorar a consequência dos atos de cada um, ao invés das suas próprias intenções – principalmente porque Hannah Baker não sabe o que as pessoas pensam, e muitas vezes as coisas acontecem de forma involuntária, como é um diálogo entre ela e Clay em determinado momento. Porém, é impossível não deixar de perceber o amadurecimento que eles adquirem na reta final da temporada – vide a cena final de Jessica quando começa a contar ao pai que foi estuprada, sem falar do próprio Clay.

13 Reasons Why consegue abordar de forma ampla, e as vezes superficial, a vida de jovens que sofrem bullying, abuso, que são agredidos, excluídos e passam por diversas das piores situações de segunda à sexta nas escolas por todo o mundo, jovens estes que muitas vezes não se enquadram naquilo que as pessoas julgam aceitável. Com isso, e com o retrato cético que não liga para o pudor daquilo que o público aguenta, ou gostaria, de ver, 13 Reasons Why mostra a verdade, acima de tudo, sem máscara ou maquiagem, sem disfarça-lá. Aqui, a realidade é vista nua e crua, de forma seca e chocante, porém, eficiente e agonizante.

Imagem: Divulgação/Netflix

Mais uma vez a Netflix exibe um grande acerto, que mesmo apresentando oscilações narrativas que incomodam em momentos importantes da temporada – a confusão dos acontecimentos durante a festa na casa da Jessica são contadas em partes, dividas de formas inteligentes e bem encaixadas nos seus devidos contextos, mas a organização narrativa dos acontecimentos é quase deplorável -, ainda consegue fazer com que sua história e mensagem, ambas de suma importância, se sobressaiam aos problemas estruturais do programa. Assim, é preciso reconhecer que 13 Reasons Why é a voz de uma grande parcela de jovens que precisa ser ouvida, na mesma proporção em que a série foi assistida.

Avaliação

(Muito Bom)

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Comentários

Editor-chefe e criador do Matinê Cine&TV é estudante de Jornalismo, leitor, cinéfilo e seriador. Declarado fã de Harry Potter e O Senhor dos Anéis, Matheus, adoraria viver um apocalipse zumbi em TWD, ou lutar contra os exércitos de Westeros em GoT, mas se contenta em assistir essas e outras dezenas de séries na vida real.

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