imagem do filme "O Morro dos Ventos Uivantes"
Margot Robbie e Jacob Elordi como Cathy e Heathcliff no filme "O Morro dos Ventos Uivantes", de Emerald Fennell. | Imagem: Divulgação/Warner Bros.

A nova versão cinematográfica de “O Morro dos Ventos Uivantes” que chega aos cinemas na próxima quinta-feira, 12 de fevereiro, reacendeu debates relevantes nos últimos meses, especialmente desde a publicação dos seus materiais de divulgação. As duas principais pautas tratavam da escalação de Jacob Elordi e do quanto o longa-metragem seria, ou não, uma adaptação do clássico escrito por Emily Brontë e publicado em 1847.

A frase “na aparência, é um autêntico cigano de pele escura” descreve Heathcliff logo no começo do livro. Agora, o personagem é vivido por Jacob Elordi, que em nada se parece com o que é apresentado. Com a escalação do ator, a nova versão já dava os primeiros indícios de um distanciamento em relação à obra original. E, naturalmente, corria o risco de trazer de volta debates sobre o embranquecimento de personagens originalmente não-brancos, não sendo a primeira produção a fazer isso no cinema ou na televisão.

Com a divulgação dos trailers e dos demais materiais promocionais do filme, ficou evidente que não se tratava de uma adaptação de fato, mas sim de uma nova versão, ou, precisamente, de “O Morro dos Ventos Uivantes”, de Emerald Fennell. A cineasta responsável por Saltburn (2023) e Bela Vingança (2020), apresenta ao público uma reinterpretação de uma das histórias mais conhecidas da literatura.

Nesse contexto, a trama de Cathy (Margot Robbie) e Heathcliff (Jacob Elordi) se transforma em um romance adulto sobre um amor avassalador na intensidade com a qual contamina seus personagens e pela sua capacidade de destruí-los. A ideia do filme é levar os protagonistas a um enfrentamento das convenções sociais das relações, sem julgar suas escolhas ou estabelecer limites, deixando isso para a audiência discutir.

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Jacob Elordi e Margot Robbie como Heathcliff e Cathy no filme “O Morro dos Ventos Uivantes”, de Emerald Fennell. | Imagem: Divulgação/Warner Bros.

Como parte da nova versão, Emerald Fennell e sua equipe estabelecem uma roupagem visual ousada e esteticamente pop como grande marca desta releitura. Com cores vibrantes e provocativas, a direção de arte e o figurino são o que mais chamam a atenção. Seja pela composição dos cenários das residências e do quanto refletem os personagens e suas famílias ou em como a vastidão dos ambientes abertos é aproveitada como possibilidade do desconhecido.

Sendo assim, a reinterpretação de “O Morro dos Ventos Uivantes” se distancia de ser um filme de época comum, deixando de lado aproximações visuais com obras sóbrias como Orgulho e Preconceito (2006), cuja história também acontece durante o século 19. A partir disso, o longa-metragem de Emerald Fennell transforma elementos do seu estilo gótico e barroco em uma estética pop própria para trabalhar a serviço da narrativa e dos seus personagens.

A partir disso, “O Morro dos Ventos Uivantes” se distancia da ideia de ser uma transposição de livro para o cinema, se tornando algo novo e próprio do que a diretora, e também roteirista, propõe. É desta maneira que, além da cenografia, o filme sustenta no figurino as suas ideias de realidade e desejo. No entanto, o ato de desejar não se refere exclusivamente à fisicalidade dos personagens, mas também ao que é a realidade de cada um e o que eles querem para ter uma vida melhor.

É assim que Emerald Fennell estabelece logo no começo as dificuldades enfrentadas por Cathy e uma vida economicamente difícil sustentada por um status social que vive à sombra do nome da família. Para Heathcliff, que foi abandonado e resgatado por um homem que enfrenta problemas com a bebida, tudo é ainda pior pela forma como é tratado. Roupas sujas, um quarto na parte de cima de um galpão exposto pelo desgaste dos materiais. Nem mesmo a relação de carinho e afeição com a protagonista pode mudar a dura realidade enfrentada por ele.

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Jacob Elordi como Heathcliff em cena do filme “O Morro dos Ventos Uivantes”, de Emerald Fennell. | Imagem: Divulgação/Warner Bros.

Desta forma, a trama se desenvolve com um aparato uniforme entre roteiro, elenco e mise-en-scène. Para tornar tudo isso ainda mais pop, Emerald Fennell conta com a trilha sonora de Charli XCX para encantar o público. Uma armação bem orquestrada da cineasta para brincar com as fantasias dos espectadores.

Nesse sentido, “O Morro dos Ventos Uivantes” demonstra um grande interesse em criar vínculos com a audiência na sala de cinema. Não se trata de um filme que levanta discussões sociais como Bela Vingança ou de um entretenimento socialmente comprometido como Saltburn. O novo filme de Emerald Fennell é como um encontro entre Orgulho e Preconceito com Cinquenta Tons de Cinza, onde a dor não é física, mas uma agonia emocional causada por uma paixão corrosiva que condena seus personagens ao desejo e destruição mútuos.

A partir disso, o desejo proibido entre Cathy e Heathcliff está atrelado à posição de cada um. Ela quer uma vida distante das dificuldades financeiras e do caos familiar em que foi criada. Compreendendo que Heathcliff não teria condições de tirá-la de uma vida tão ordinária, a protagonista é atraída pela grama mais verde do novo vizinho rico. 

Do outro lado, Heathcliff está ciente de que não tem o que é necessário para ter Cathy em seus braços. Ou seja, atração e desejo não são suficientes para os dois. No entanto, em condições ideais, dinheiro, conforto e status social não são impeditivos para que ambos coloquem tudo o que conquistaram em risco quando saboreiam o prazer.

Com os conflitos estabelecidos, Emerald Fennell deixa claro que o seu “O Morro dos Ventos Uivantes” não se trata de um romance convencional. Ao deixar essa ideia de desfechos hegemônicos de lado e com base na obra que a inspira, a diretora ainda faz questão de desvincular os seus personagens de qualquer construção que os torne boas pessoas. Cathy, Heathcliff e companhia são compostos e marcados por inúmeros defeitos ou comportamentos reprováveis que vão do egoísmo à soberba. Da mesma maneira em que demonstram todas as fragilidades das lacunas emocionais que suas vidas possuem.

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Margot Robbie como Cathy em cena do filme “O Morro dos Ventos Uivantes”, de Emerald Fennell. | Imagem: Divulgação/Warner Bros.

Embora acerte em trazer todas estas camadas para a história, nem sempre o roteiro de “O Morro dos Ventos Uivantes” se demonstra eficiente na construção dessas dinâmicas entre os personagens. O texto é expositivo, em sinal de que as imagens e acontecimentos não se julgam suficientes quando mostrar aquilo que o filme propõe. Mesmo que a ideia seja tornar a história um fenômeno pop, essas escolhas fragilizam o roteiro, que nem sempre consegue acompanhar a qualidade estética que criou para si.

Acompanhando isso, “O Morro dos Ventos Uivantes” parece procurar por cenas e diálogos icônicos para marcar os espectadores. Desta maneira, corre o risco de tornar sua relação mecânica com o público que tenta cativar. Embora seja ousado na performance física dos atores, que encarnam com precisão o material que lhes é disponibilizado, essa busca incessante de produzir acontecimentos visuais e textuais dá ao espectador uma sequência de punchlines. Desta maneira, sobra originalidade visual e inconstância na identidade do roteiro que alterna diálogos expositivos com frases de efeito poéticas que procuram sua potência na imagem.

Paralelo a tudo isso, há ainda uma sub trama de intriga e mentira que rodeia Cathy e Heathcliff. O elemento demonstra que além de proibido, o envolvimento entre eles é indesejado. Mesmo que as razões disso sejam evidentes e justifiquem as atitudes de determinada personagem, o filme não se dedica a explorar em profundidade o que realmente a motiva. 

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Jacob Elordi e Margot Robbie como Heathcliff e Cathy no filme “O Morro dos Ventos Uivantes”, de Emerald Fennell. | Imagem: Divulgação/Warner Bros.

Em “O Morro dos Ventos Uivantes”, Emerald Fennell assume os riscos de produzir a própria versão de uma das histórias mais conhecidas da literatura. Demonstrando-se como um entretenimento adulto, o longa aborda questões profundas sobre amor e desejo, criando cenas plasticamente ousadas que podem, sim, fisgar a audiência. No entanto, o filme desliza com um texto que mira na complexidade e acerta na exposição, além de ter dificuldade em conduzir o público aos seus grandes acontecimentos sem que estes pareçam fabricados demais. 

Ainda assim, a ousadia de Emerald Fennell em bancar uma versão própria e pop em “O Morro dos Ventos Uivantes” vale como um exercício autoral de uma cineasta em seu terceiro trabalho. Desde o lançamento de Bela Vingança, a diretora e roteirista demonstra um senso estético apurado ao ter ao seu lado uma equipe que compreende visualmente onde ela quer chegar com suas histórias. 

Com todo esse contexto, Emerald Fennell se reafirma como uma das cineastas mais interessantes da sua geração, que agora tem em sua filmografia um “O Morro dos Ventos Uivantes” para chamar de seu.

Assista ao trailer de “O Morro dos Ventos Uivantes”

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