Primeiras Impressões | American Gods

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Imagem: Arquivo Pessoal/ Matheus Machado

Estava nas hábeis mãos de Bryan Fuller a adaptação televisiva de American Gods (Deuses Americanos), cultuada obra de Neil Gaiman. Fuller traz o recente trabalho em Hannibal no currículo e a inacabada Pushing Daisies (ambos marcantes), e ele mostra logo no início que é o homem certo para trabalho.

Encontrando resoluções visuais que trazem uma forte identidade estética para o programa, os vícios da assinatura pesada de Fuller (mesmo que ele não dirija o episódio) mostram que o visual bebe na fonte de Hannibal. Assim, mesmo com um episódio ótimo, American Gods esbanja personalidade, mas a impressão que fica é que já nos conhecemos de outros carnavais.

A carga “Hannibalesca” que o criador traz para o programa é tanta, que a dinâmica entre seus novos protagonistas, Wednesday (Ian McShane) e Shadow Moon (Ricky Whittle), é bastante similar a de Will Graham e Hannibal Lecter. Mas, apesar de visivelmente beber na mesma fonte que a série, American Gods traz em seu mote cenas plasticamente impecáveis e marcantes, onde David Slade (que dirige o piloto e trabalha com Fuller desde Hannibal) transforma um banho de sangue em uma obra de arte, por exemplo.

Além dos atrativos visuais conquistadores remetendo a uma animação estilizada (lembrando até mesmo a sangria de Zack Snyder em 300), American Gods desenvolve uma linha narrativa tênue, e transforma a história curta do seu primeiro episódio (um cara que é liberado mais cedo da prisão por causa da morte da sua esposa, e no caminho para o funeral acaba conhecendo um homem intrigante, que lhe apresenta um novo mundo) em um enredo envolvente. “The Bone Orchard” (O Pomar dos Ossos em tradução livre) é um episódio eficiente no que se propõe: apresentar ao público uma fantasia interessante com muito a ser mostrado – parte deste mérito deve-se ao elenco, aqui, muito bem escalado.

Imagem: Arquivo Pessoal/ Matheus Machado

Ricky Whittle como Shadow Moon poderia ser motivo de desconfiança, porém, em American Gods, Whittle atende as necessidades do protagonista e as nuances do personagem em ser um homem agressivo e viril, assim como representa alguém que carrega um fardo nos ombros. Ian McShane rouba a cena a cada frase que sai de sua boca – principalmente ao finalizar o acordo com Moon, onde ele cospe em sua mão e aperta a de Shadow para fechar o “contrato” de trabalho com o rapaz.

É interessante notar que narrativamente a série instiga o espectador a tentar reconhecer as figuras ali adaptadas (isso para quem não conhece a obra literária de Gaiman) trazendo de forma atualizada a personalidade dos Deuses da mitologia nórdica, recebendo o retrato de Gaiman (partindo da premissa: “e se os Deuses fossem Americanos?“) com uma roupagem contemporânea.

Ao estabelecer uma fantasia rica em detalhes históricos, narrativos e visuais, American Gods demonstra o potencial desse universo com pequenos momentos que questionam tudo o que ali é visto. Fuller e Slade impressionam com as oscilações entre o mudo real e o surreal inserido no meio de convívio humano, e tal contraste fica evidente, principalmente, quando Mad Sweeney, o Duende (Pablo Schreiber, que vive o Pornstache de Orange is the New Black) entra em cena e brinca com as possibilidades fantasiosas daquele mundo, acrescentando um humor sagaz e agressivo a história – e ainda satirizando o estereótipo visual dos duendes.

Imagem: Arquivo Pessoal/ Matheus Machado

Vale ressaltar, que o mesmo acontece quando Bilquis (Yetide Badaki) se alimenta do prazer e desejo de um mero mortal, onde além de toda a simbologia conceitual da cena, o visual, mais uma vez, torna-se um show a parte. O mesmo se repete no pequeno momento em que Technical Boy (Bruce Langley) transforma pixels em mais um agouro estético, que culmina em uma cena brutal e insanamente doentia com vibrações de A Laranja Mecânica inspirando o balé violento e sangrento de Fuller no piloto.

American Gods, claramente, chega para ficar. Bryan Fuller e Michael Green (Logan) assinam o roteiro inteligente e cheio de informações conceituais e intrigantes para o futuro do programa na TV americana. O universo dos Deuses Americanos deixa uma clara mensagem informando que ainda têm muito que mostrar. Os méritos visuais caminham de mãos dadas à linha narrativa que se estabelece como alguém que já pertence a esse mundo há muito tempo. Com nuances que traçam rumos promissores, American Gods é uma fantasia completa ao transcender com liberdade entre o mundo real e o imaginário, entre a violência e o humor negro, sagaz e sem vergonha.

Eis uma das grandes estreias da TV americana em 2017.

Avaliação

(Ótimo)

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Comentários

Editor-chefe e criador da Matinê Cine&TV. Fã de Harry Potter, O Senhor dos Anéis, Planeta dos Macacos, Star Trek, Star Wars, Marvel, DC Comics. Na TV The Walking Dead, Shameless, Jessica Jones, The Handmaid’s Tale, entre outras, são algumas das suas favoritas.

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