Crítica | Antes Que Eu Vá

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Imagens: Divulgação/ Paris Filmes

A adaptação da obra literária homônima escrita por Lauren Oliver tinha tudo para ser apenas mais um filme direcionado ao público adolescente com os clichês habituais e frequentes do gênero. Porém, passados os minutos que abrem a história até que a mesma comece a se desenvolver, o longa surpreende ao entrar em um loop temporal repetitivo de alta qualidade, realçando um tom reflexivo e interessante sobre a abordagem da história.

Como é possível mudar tanto e absolutamente nada mudar”, reflete a protagonista ao tentar modificar a sua história de quase todas as formas possíveis, mas no fim tudo continua do mesmo jeito. Antes Que Eu Vá é uma surpresa do gênero, trazendo um típico grupo de amigas entrando na reta final do colegial, onde todas são populares e desejadas, praticam bullying por esporte e divertimento e tem a vida dos sonhos de qualquer adolescente no ensino médio. Inicialmente, o filme de Ry Russo-Young (Caminho Para o Coração) trabalha a sua apresentação a base de clichês românticos, parecendo uma série de televisão teen estadunidense. Mas isso muda logo em seguida, quando a história, de fato, começa.

A diretora e roteirista muda o caráter teen para uma história indie de base reflexiva, mas sem perder o direcionamento ao público adolescente. Quando o loop começa a repetir o mesmo dia de Samantha Kingston (Zoey Deutch), a história ganha novos rumos e começa a surpreender por apresentar elementos diferentes do que se poderia esperar – vide o clima intrigante para saber o que e por quê aquilo está realmente acontecendo. Seguindo este ritmo curioso sobre a trama, Antes Que Eu Vá se desenvolve sem a necessidade de responder suas perguntas de imediato, até que tanto o público como a protagonista possam aceitar essa nova condição. Ainda assim, o longa se mostra inteligente ao saber quando a narrativa se aproxima de tornar a história cansativa, apresentando nuances de alívio no desenvolvimento, impedindo que o marasmo do loop torne a repetição densa e enjoativa.

Apesar de ter um roteiro bem estruturado, conseguindo apresentar boas válvulas de escape ao longo da história, o elenco demonstra fragilidade a todo o momento. Conforme a história cresce os jovens precisam entregar ainda mais em suas atuações e isso demora a acontecer. Zoey Deutch, que protagoniza o longa, consegue carregar a história com a atuação evoluindo conforme a complexidade do drama da personagem aumenta – desde a frágil, inocente e até mesmo sonsa personalidade da protagonista, aos momentos mais difíceis do trajeto, com a raiva e a aceitação pairando sob a personagem no momento certo. Mesmo assim, o elenco soa genérico, tanto nas atuações como na personalidade dos personagens, afinal isso é o que faz a história conversar com o seu público-alvo.

Imagens: Divulgação/ Paris Filmes

Com isso, também, o roteiro se propõe a mudar a abordagem dos seus próprios clichês, quebrando estereótipos, paradigmas e invertendo a sua própria lógica ao mostrar o bullying na visão de quem pratica – desde o quão divertido parece degradar a imagem de alguém, até a redenção que inicia com o remorso. Apesar de trazer desdobramentos um tanto inesperados, Antes Que Eu Vá encontra os méritos de sua construção no ato final. Este, por sua vez, ainda se propõe em não explicar nada do que está acontecendo, mostrando que mesmo em frente à morte uma pessoa pode ter novas chances até que aprenda sozinha o que precisa ser feito.

Assim, Antes Que Eu Vá surpreende com diversas reflexões em seu ato final, exaltando desde a capacidade de percepção cognitiva da protagonista, e palavra, esta, define de modo eficiente à evolução da personagem ao longo do próprio arco dramático.

Ry Russo-Young dirige com naturalidade o seu sétimo longa-metragem, e o primeiro com grande destaque no mercado cinematográfico. A diretora, apesar de não apresentar nada excepcional, consegue ser eficiente na construção narrativa e visual, onde faz com que ambos os aspectos conversem de maneira suave e agradável. Ainda assim, quando necessário, o uso de efeitos práticos se sobressai como ponto positivo de um filme que, até então, nem precisava usá-los. Mesmo não apresentando nada inédito ou que inove no gênero, Ry escolhe os caminhos certos para sua história, sem deixar que a mesma se perca no meio da estrada ou que encontre empecilhos indesejáveis.

Imagens: Divulgação/ Paris Filmes

Antes Que Eu Vá foge de ser um romance blasé entre adolescentes populares, ou, de romantizar as crueldades do ensino médio, onde uns são mais favorecidos que outros por serem integrantes do grupo popular da escola. Ao contrário disso, o longa apresenta uma história compassiva com sua própria protagonista que recebe a dádiva de reparar os seus erros no momento mais importante da sua vida: a própria morte. Assim, com um loop dinâmico e inteligente, Antes Que Eu Vá deixa a leveza de sua reflexão como um sussurro ao pé do ouvido, e o que já é bom torna-se ainda melhor e mais surpreendente no seu ato final, quando a história se revela sem ao menos explicar o porquê de tudo aquilo acontecer.

Avaliação:

(Bom)

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Comentários

Editor-chefe e criador do Matinê Cine&TV é estudante de Jornalismo, leitor, cinéfilo e seriador. Declarado fã de Harry Potter e O Senhor dos Anéis, Matheus, adoraria viver um apocalipse zumbi em TWD, ou lutar contra os exércitos de Westeros em GoT, mas se contenta em assistir essas e outras dezenas de séries na vida real.

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