Crítica | Dear White People – 1ª Temporada

Compartilhe:Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on LinkedInShare on Google+Email this to someone
Imagem: Divulgação/ Netflix

O racismo é um assunto recorrente no cinema e na televisão, na última temporada, por exemplo, filmes como Um Limite Entre Nós (Fences), Estrelas Além do Tempo (Hidden Figures) e um episódio da série Legends of Tomorrow abordaram a questão. Porém, eles criticam de forma seca, e pouco incisiva, a atitude humana de não aceitar seu semelhante. Diferente deste retratado e da maioria já visto, Dear White People entrega uma história muito mais mastigada do que o filme homônimo de 2014 – baseado em livro de mesmo nome -, mas aponta o dedo na cara do racismo exatamente como precisava ser feito.

Justin Simien, criador do programa e diretor do filme (que também dirige o primeiro e último episódio da série), consegue apresentar uma história interessante, contada em uma narrativa irreverente que foge dos padrões habituais. Assim, abordando o racismo, a segregação racial, o racismo reverso e o preconceito (de forma abrangente), Simien dita às regras da visão sobre o assunto com diversos pontos de vista. A história gira em torno em um grupo de jovens, onde cada um ganha um espaço diferente que contextualiza esses assuntos mostrando a forma que cada jovem tem para lidar com isso.

A série traz vários diretores para seus episódios, o que é padrão na TV americana. Porém, é evidente que a direção de Barry Jenkins (Moonlight – Sob à Luz do Luar) fez toda a diferença no programa. Apesar de trazer um tema de suma importância e atacá-lo com grande agressividade, Dear White People sofre com algumas incoerências narrativas, e essas são a assinatura do criador do programa. Há escolhas de Simien que tentam dialogar apenas com as pessoas que sofrem o preconceito, assim, a proposta de abrir a temática para reflexão e discussão do grande público é afetada de maneira negativa.

Imagem: Divulgação/ Netflix

O desenvolvimento episódico é inteligente ao não deixar buracos na construção da história, mesmo que alguns personagens fujam do núcleo, teoricamente, central do programa. Ainda assim, as resoluções encontradas pelos roteiristas (Simien e Jack Moore) conseguem coexistir com todos os arcos abordados no programa, obtendo como resultado final a ligação bem tramada entre os personagens. Assim, a série mais parece uma sequência de pequenos curtas-metragens que se completam ao longo da temporada.

Por outro lado, mesmo com o grande acerto do programa estando no desenvolvimento narrativo de sua temporada, o mesmo não pode afirmar quanto a escolha dos personagens que ganharam focos individuais. Enquanto Sam (Logan Browning) e Lionel (DeRon Horton) assumiam à frente como protagonistas, o programa insistiu em dar a cada personagem dois episódios para que eles fossem se desenvolvendo – que no caso de Coco Conners (Antoinette Robertson) não era necessário. A prova de que isso poderia ser diferente, é quando Gabe (John Patrick Amedori), ou o “mozão branco“, ganha um capítulo para si mesmo. Assim a série acerta em dar a dose correta de desenvolvimento ao personagem, que além de ser apenas o “mozão” de Sam, teve importância para apenas um acontecimento na trama.

Porém, o acerto com Gabe não refletiu em Joelle (Ashley Blaine Featherson), uma personagem que sempre esteve presente nos principais momentos da série, mas que não ganhou o seu devido destaque – principalmente por apresentar, da metade para o fim da temporada, um arco dramático bastante interessante e que valeria o investimento de Simien.

Imagem: Divulgação/ Netflix

Dear White People pode ser um dos destaques temáticos da temporada deste ano, mas acima disso está o tratamento aguçado que as doses de realidade têm ao se unirem às sátiras de bom gosto que aparecem aqui – como à paródia de Scandal, ou ao que Tarantino fez em Django Livre -. Ainda assim, mesmo que cutucando bravamente o modo em que a cultura pop é exposta no cinema e televisão, a série consegue apresentar a gravidade do assunto – o que é devidamente mais relevante. A festa blackface e os questionamentos do policial do campus durante a outra confraternização representam o absurdo que o racismo, ou, as brincadeiras de mau gosto podem oferecer.

Indo mais além, o programa ainda questiona a si mesmo, quando mostra que o racismo reverso também acontece, o que é de fato uma surpresa agradável, e que mostra que o racismo não ocorre apenas entre brancos e negros, mas pode haver o contrário também – e isso independe de motivo, afinal, o ato continua sendo errôneo, não interessa o motivo, a causa, a razão ou a circunstância.

Dear White People, por tanto, é um novo acerto da Netflix. A série, que não teve o mesmo estouro que 13 Reasons Why – que mesmo com assuntos diferentes trazem temas de suma importância para a sociedade -, consegue apresentar de maneira entendível os dilemas vividos por aqueles jovens negros ao combate, ou não, do racismo. Mesmo com pequenos problemas estruturais, o programa vai além com o seu subtexto rico em críticas a sociedade atual. Assim, Dear White People trilha o seu caminho, alternando em momentos pretensiosos, e outros nem tanto, mas deixando um saldo positivo ao bater de frente, e sem vergonha, com o racismo – apresentando uma nova perspectiva a esse problema que insiste em perdurar no mundo todo.

Avaliação

(Bom)

Compartilhe:Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on LinkedInShare on Google+Email this to someone
, , , , , , , , ,

Comentários

Editor-chefe e criador da Matinê Cine&TV. Fã de Harry Potter, O Senhor dos Anéis, Planeta dos Macacos, Star Trek, Star Wars, Marvel, DC Comics. Na TV The Walking Dead, Shameless, Jessica Jones, The Handmaid’s Tale, entre outras, são algumas das suas favoritas.

Você Também Pode Curtir