Imagem: ComicCON RS
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No final de semana passado aconteceu no Rio Grande do Sul, a ComicCON RS, durante sábado e domingo (20, 21 respectivamente). Durante o evento foram feitos vários painéis, sendo que um deles foi sobre A Jornada do Herói, e para falar sobre o assunto tivemos a presença da atriz e psicoterapeuta Cecília Dassi.

Depois de acompanhar o painel, que teve Cecília como convidada, tive a oportunidade de conversar com ela sobre a interpretação dos atores, a construção dos personagens e falamos também de como isso é importante para o desenvolvimento do longa, tanto a história em si como o próprio roteiro. Além disso a conversa teve foco em explorar mais o lado psicológico de como é feita a construção do personagem, alisando conflitos externos e internos. Acompanhe abaixo como foi a entrevista que fiz com Cecília Dassi.

Matheus: Em que ponto você acha, da construção do personagem, que a atuação precisa de um elemento dramático que faz com que o personagem, tanto no filme ou como na TV, comece a conquistar a empatia do público? (Como exemplo a relação da Arlequina (Esquadrão Suicida) com os fãs).

CecíliaNa verdade, nesse sentido, eu acho que o que enriquece mais não é uma coisa específica: “isso aqui, vou fazer dessa forma e pronto” (exemplifica ela), eu acho que é um processo. O que tem mais riqueza e traz identificação é o conflito e a profundidade do personagem. A interpretação não pode ficar superficial. “Ah, eu quero ir, e porque eu quero ir eu já to indo”, tem que ter sempre uma complexidade de sentimentos. A gente nunca sente uma coisa sozinha, ou isolada. A gente sente medo, mas a gente quer ir e ao mesmo tempo a gente quer ficar. E da mesma forma o personagem precisa dessas várias camadas ao mesmo tempo, ele precisa ter um conflito.

Matheus: É como o dever dos heróis, mas também aquele lado humano que as vezes fala mais alto na hora de “matar” o vilão. “Eu mato, ou eu não mato”. É esse tipo de conflito que aumenta as camadas dramáticas do personagem?

Cecília: Isso, manter a proporcionalidade, pensar sobre, depois que matar pensar sobre, ou não, e também ir para um lugar de profundidade de sentimento e aí entrar em um processo de confusão e de profundidade de conflito, mas dentro de emoções muito intensas. “Você quer matar, porque você quer fazer justiça, mas está levando para o pessoal. Mas você está tentando fingir, para os outros, que quer matar porque ele (vilão) é mau, mas você está com raiva porque ele fez algo de ruim para você.” Então são coisas que a gente vai estudando, racionalmente, e ao mesmo tempo a gente também consegue ir criando na cena. E aí tem todo o passo a passo da jornada do herói que eu acho que também enriquece muito na hora de criar a identificação.

Matheus: Essa questão do conflito é bem interessante, porque não é apenas o conflito do herói com o vilão, tem um conflito do personagem com ele mesmo. Como em Capitão América: Guerra Civil, existe um antagonismo (digamos assim) entre o Steve Rogers e Tony Stark, mas ele também tem o conflito de que tudo que está acontecendo ali é por causa do amigo dele (Bucky). Então as ações dele pesam, depende do dever dele como herói e do lado pessoal para isso acontecer?

Cecília: Exatamente, os conflitos nunca são só externos, nem só internos. Quanto mais a gente consegue colocar camadas e complexidade, mais enriquece, mais é incrível e mais a gente, como expectador, fica hipnotizado porque nós ficamos tentando decifrar o que está se passando por trás daquilo ali. E a gente percebe, inconscientemente, quanto que os sentimentos brigam entre si, e também começamos, talvez, a perceber “caramba, é verdade, eu também sou assim as vezes, sabe?!”, acontece inconscientemente, mas acontece.

Matheus: Essa questão das camadas vai agregando ainda mais ao roteiro do filme porque você tem a história ali fechadinha, só que é a atuação que vai fazer tudo aquilo ali andar, são as camadas que ele (ator) vai dando para a atuação, que daí vai fazer a história desenvolver. É nesse momento, vendo isso, que nós decidimos criar empatia com aquele personagem, ou não?

CecíliaPra gente como ator, é muito importante ter essa compreensão. Por exemplo, Breaking Bad: Bryan Cranston, estava contando que na cena em que “aquela” menina morre, ele (Walter White) que iria matar ela, e ela estava deitada de lado, vomitando em uma crise de overdose, e ele ia virar ela para cima para ela se engasgar. O ator viu que naquele momento para o personagem dele não seria bom. Isso ia afastar o público dele porque iam falar “caraca ele é um monstro”. Ele era um anti-herói, mas não era um “escroto” cruel, e a menina criou muita identificação, era uma personagem muito legal, todo mundo gostava dela, e ele ia pegar e matar a garota?! É aí que ele (Cranston) faltou “olha, eu acho que isso não vai ser bom, acho que a gente não pode fazer isso, eu posso não matá-la, posso não salvá-la, mas não posso matá-la”, Então ele ia vê-la agonizando e não ia salvar a personagem. Ele defendeu o personagem dele.

Matheus: Atualmente, para mim, um personagem muito interessante é o Rick, de The Walking Dead. Ele está sempre sob uma pressão enorme, por causa de todos os acontecimentos, por ser líder de um grupo e tudo mais. Muitas vezes a gente não entende o que ele está sentindo ali, porque a gente quer ele tome uma certa atitude, mas não sabemos porque que ele toma ou porque ele não pode tomar aquila atitude. O que acontece nesse momento?

CecíliaA gente compreende quando ele perde um pouco a mão (cabeça) né?! Mas a gente, de certa forma, compreende ele porque ele não fica 100% em um determinado comportamento. Ele também não faz escrotices muito escrotas. Tipo, matar uma menina que ele não gostava, e ele como ator (Andrew Lincoln) vê que não ia ser bom pra ele, aquela personagem tinha criado muita identificação e as pessoas iam ver aquilo como maldade gratuita da parte dele.Tipo, perdeu a noção, que é aliás uma coisa que os roteiristas precisam ter cuidado, e que o ator também precisa ter porque quando você, como herói, exagera na sua punição ao vilão, você perde a proporcionalidade, você muitas vezes perde a empatia do público e eles pensam “ah não, não precisava ter feito isso”, sabe, pisar na ferida, chutar o cachorro morto. “Cara, ele não está só querendo justiça, ele não está querendo só combater o mau, ele tá querendo fazendo o mau, ele é tão mau quanto o vilão no fim das contas.”

Matheus: Esse é o momento que ele ultrapassa a linha da função dele, como líder. Isso não seria a visão que o roteiro vai passar também, como é uma série baseada em HQ, ela é muito violenta e nem sempre ela ultrapassa esse limite. Mas com essa essência violenta, não ficaria meio complicado de trabalhar o personagem?

Cecília: Tem que ser levado em conta, que muitas vezes você vai pegar uma HQ, que é muita complexa, longa e rica e vai reduzir em uma hora e meia de filme/episódio. Então você pode acabar perdendo elementos, e isso é muito importante até na hora de montar o roteiro, porque as vezes na ânsia de você querer reduzir, compilar e fazer uma coisa menor, mais enxuta, você acaba cortando elementos que não parecem importantes na história, mas talvez sejam os elementos que fazem com que a gente veja aquele anti-herói como um herói, que tem justificativa para quando ele erra, exagera, fica confuso e com medo. Isso faz parte do processo, mas aí se a gente tira alguns elementos a gente pode acabar afastando esse herói da gente, pode acabar errando a mão, é realmente muito delicado.

Essa foi a entrevista do Matinê Cine&TV com a atriz e psicoterapeuta Cecília Dassi, durante a ComicCON RS.

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Criador da Matinê, está no 4º semestre do curso de jornalismo no Centro Universitário Ritter dos Reis - UniRitter. Aqui escrevo sobre filmes e séries a partir da minha perspectiva de mundo, sem medo de mostrar a todos o meu entendimento pessoal daquilo que assisto. O debate de pontos de vistas diferentes é livre, e sempre bem-vindo.