Da esquerda para a direita: Ava (Hannah Eibinder) e Deborah (Jane Smart) em cena da série 'Hacks', da HBO. | Crédito: Divulgação/HBO Max

Na comédia, seja ela televisiva ou não, o “punch line” é um dos elementos mais importantes de uma piada. Refere-se a melhor parte, aquela que faz o público dar uma gargalhada ou perder o fôlego de tanto rir. Mas, principalmente, deixa os espectadores ansiosos para a próxima.

“I Think She Will”, o finale de Hacks, é o seu perfeito “punch line”. É ele que entrega a construção de Deborah (Jane Smart), a evolução de Ava (Hannah Eibinder), o caminho trilhado por Marcus (Carl Clemons-Hopkins) e a própria crescente narrativa da série. Para chegar a isso, foi necessário fundamentar tudo o caminho.

Hacks tem uma premissa simples, e bastante comum, quando resolve contar a história de uma famosa comediante que resiste ao final da carreira e de se sua pupila (não de livre escolha) que sofre com as consequências do mundo contemporâneo. A série desenvolvida por Lucia Aniello, Paul W. Downs e Jen Statsky, acertadamente, não é somente sobre isso.

Toda narrativa precisa de um fio condutor para desenvolver ramificações que darão contexto aos fatos e background aos personagens. É assim em qualquer programa narrativo de televisão, e principalmente em filmes. Em Hacks, por óbvio, não é diferente.

O que é importante na série, disponível no HBO Max, não são apenas os shows de Deborah Vance no palco principal do Hotel Palmetto em Las Vegas, mas sim o que acontece por trás deles e, ou, o que a levou até lá. Do mesmo jeito é com Ava, sangue novo na indústria.

Deborah (Jean Smart) em cena da série ‘Hacks’, da HBO. | Crédito: Divulgação/HBO Max.

Embora Hacks tenha sua trama dentro no show business, por ser um produto televisivo, sua reflexão trata muito mais da indústria hollywoodiana. Não é novidade que o mercado cinematográfico estadunidense é movido por uma engrenagem machista e sexista. Mas talvez seja contemporâneo que isso esteja mudando – independente do ritmo.

Em “1.69 Million”, oitavo episódio, Deborah e Francine (Anna Maria Horsford) relembram os abusos que sofriam no passado. Subiam ao palco coladas na parede para que o dono da casa de shows, onde se apresentavam, não apalpasse as suas bundas. “Aceitavam” porque o homem era dono dos principais locais onde poderiam se apresentar. Logo, qual lugar as deixariam mostrar sua arte de novo se denunciassem os assédios?

Com isso, Hacks não precisa usar de um subtexto ou de entrelinhas para refletir sobre uma indústria que discrimina suas próprias estrelas e talentos. A questão não é apenas pensar sobre ou expor problemas já conhecidos e frequentemente denunciados. A série do HBO Max mostra que as mudanças estão partindo de quem realmente faz Hollywood acontecer (escritores, diretores, artistas).

Ava, por exemplo, embora tenha feito uma piada problemática em uma rede social e tenha que lidar com o cancelamento (e a consequente falta de oportunidades por causa disso), fica atordoada ao ouvir de Deborah e Francine os abusos que sofriam. As comediantes contam as histórias com risadas, em uma espécie de “olha o que tivemos que passar para continuarmos sendo o que nascemos para ser”.

Ava (Hannah Eibinder) em cena da série ‘Hacks’, da HBO. | Crédito: Divulgação/HBO Max

Apesar de ter um humor questionável, e ser condenada por isso, Ava vai contra ideias grosseiras da indústria quando é procurada por dois roteiristas famosos. Mas a personagem bissexual que tem relações causais com homens e mais profundas com mulheres também falha com Deborah. Afinal, são todos humanos passíveis a erros e a escolhas ruins.

Com um texto ácido em determinados momentos, sóbrio em outros e perspicaz com precisão, Hacks corresponde ao que se aguarda de uma série com a marca da HBO. Tem qualidade no roteiro e é encabeçada por um elenco talentoso que mistura nomes famosos, e até mesmo renomado no caso de Jean Smart, com o talento de caras novas, como a da comediante Hannah Einbinder. Ao mesmo tempo, não decepciona em outros elementos, sobretudo no figurino que compõe tão bem os seus personagens.

Em sua primeira temporada, Hacks já conseguiu debutar no Emmy 2021 na categoria de Melhor Comédia – levando, ainda, mais algumas indicações. Não por falta de opção, mas pelo próprio mérito de ser mais do que uma série feita pela indústria hollywoodiana para falar de si mesma. Há em sua narrativa camadas genuínas e pessoais sobre os seus personagens. Não à toa Ava, a coprotagonista, é tão mais interessante do que Deborah Vance, cuja história já foi contada de inúmeras formas diferentes por outros títulos.

Hacks, no fim das contas, é o melhor de dois mundos: um bom entretenimento para quem quer passar o tempo e dar algumas risadas; e uma série bem escrita que fala sobre problemas reais de uma indústria que vive novos e contemporâneos ares necessários – e que podem lhe fazer bem – ao acompanhar as diferenças geracionais por quem, em essência, faz Hollywood acontecer.

Avaliação
Ótima
8.5
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Criador da Matinê, está no 6º semestre do curso de jornalismo no Centro Universitário Ritter dos Reis - UniRitter. Aqui escrevo sobre filmes e séries a partir da minha perspectiva de mundo, sem medo de mostrar a todos o meu entendimento pessoal daquilo que assisto. O debate de pontos de vistas diferentes é livre, e sempre bem-vindo.